Engenharia Brasileira em Ação

No Amazonas, brasileiros detectaram surtos com dados que o SUS já tinha

Os primeiros sinais de um surto podem estar nas consultas de rotina. A equipe brasileira da Fiocruz Bahia e da Coppe/UFRJ criou um sistema que encontrou esses sinais e os levou à vigilância local. Em um piloto de 11 semanas no Amazonas, autoridades confirmaram 86 avisos; em 62 deles, o sistema foi a primeira fonte de conhecimento do surto.

Publicado em 21 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Manoel Barral-Netto, pesquisador da Fiocruz, fala ao microfone na apresentação do Aesop, no Rio de Janeiro, em 14 de fevereiro de 2023.
Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil (2023) (reprodução jornalística autorizada)

Febre e tosse levam pessoas a uma unidade de saúde. Cada atendimento deixa um registro, geralmente usado para organizar o serviço. No Amazonas, pesquisadores brasileiros conseguiram dar a esses dados outra função: perceber sinais de surtos respiratórios que a vigilância local ainda não havia reconhecido.

A solução se chama Aesop, Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico. Ela nasceu da colaboração entre a Fiocruz Bahia e a Coppe, instituto de pesquisa e pós-graduação em engenharia da UFRJ. Em vez de exigir uma nova coleta a cada consulta, a equipe trabalhou com informações que o SUS já produzia.

O salto foi testado em campo. Durante 11 semanas de um piloto realizado no Amazonas, de abril a julho de 2024, o sistema emitiu 104 avisos. As autoridades locais confirmaram 86 deles na mesma semana ou na seguinte. Em 62 desses avisos confirmados, disseram que o Aesop havia sido sua primeira fonte de conhecimento do surto. O estudo foi publicado em 2026 na revista The Lancet Regional Health – Americas.

O problema começa antes de virar emergência

Um aumento de infecções pode aparecer primeiro como pequenos sinais espalhados: mais atendimentos por sintomas respiratórios, mudanças no padrão de uma cidade, registros que chegam em momentos diferentes. Quando a alteração fica evidente, parte do tempo disponível para organizar a resposta já passou.

Manoel Barral-Netto, pesquisador da Fiocruz e coordenador do projeto, explicou essa dificuldade ao apresentar o Aesop em 2023. O desafio era reunir sinais fracos que, vistos em conjunto, poderiam apontar o início de um problema. A equipe brasileira aproximou a vigilância em saúde da modelagem computacional para procurar esse padrão nos dados.

Um princípio de um surto emite sinais fracos. Quando os sinais são fortes e evidentes é porque já passou a fase inicial. Então se quisermos identificar quando começa, temos que nos preparar para encontrar os vários sinais fracos. Em conjunto, eles significam algo mais importante
— Manoel Barral-Netto · pesquisador da Fiocruz e coordenador do Aesop

As consultas passaram a conversar entre si

No piloto, o sistema acompanhou registros semanais de atendimentos relacionados à síndrome gripal, um conjunto de sinais compatíveis com infecção respiratória. Ao comparar a evolução desses registros, buscava desvios do comportamento esperado em cada município. Um crescimento fora do padrão podia virar aviso para a vigilância.

A análise tinha duas etapas importantes antes de acionar alguém. Primeiro, os registros precisavam atender a um nível mínimo de qualidade. Depois, o aviso exigia que pelo menos dois de três modelos apontassem uma anomalia. Essa combinação evitava depender da leitura de um único algoritmo e tornava a decisão mais interpretável para quem precisava agir.

As 62 cidades do Amazonas reuniram cerca de 1,8 milhão de atendimentos durante o período estudado. Mais de 119 mil estavam relacionados à síndrome gripal. A matéria-prima da solução estava na rotina dos serviços; o trabalho de engenharia foi transformar esse volume em um sinal localizado, que uma equipe municipal pudesse examinar.

Um aviso precisava chegar a quem decide

Luiz Landau, professor da Coppe, e a equipe do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia participaram da modelagem, da visualização dos dados e do desenvolvimento do painel. O sistema precisava apresentar a informação de maneira clara para gestores, epidemiologistas e analistas, com necessidades diferentes de leitura.

O ganho de alguns dias, ou mesmo semanas, pode fazer diferença significativa na forma como os gestores organizam a assistência à população
— Luiz Landau · professor da Coppe/UFRJ

O teste foi além da tela

A avaliação do piloto, assinada por Izabel Marcilio e colaboradores, levou o aviso de volta à realidade dos municípios. A cada semana, autoridades de saúde respondiam a um questionário estruturado para confirmar o que estava acontecendo e relatar se a informação havia ajudado no trabalho.

Os 104 avisos chegaram a 41 municípios. Desses avisos, 86 corresponderam a surtos confirmados pela vigilância na mesma semana ou na seguinte. Os 62 casos em que o Aesop deu a primeira notícia equivalem a aproximadamente sete de cada dez avisos confirmados. A comparação mede justamente o que a equipe buscava: encontrar um sinal útil antes que ele fosse conhecido por outros caminhos.

Em 48 dos avisos confirmados, as autoridades disseram que o sistema contribuiu para decisões. Entre as respostas relatadas estavam reforçar a comunicação de risco, consultar especialistas, melhorar a coordenação entre estado e municípios e fornecer máscaras, insumos e mais testes de covid-19. O sinal saiu do computador e entrou na organização do serviço.

O tempo ganho virou uma tarefa concreta

Ao detalhar o projeto em outubro de 2026, a Coppe descreveu dois níveis de leitura: um painel estratégico simplificado para decisões rápidas e outro mais detalhado para análises técnicas. O mesmo trabalho que detecta uma alteração nos dados precisa ajudar alguém a entender onde olhar e o que investigar.

No Amazonas, o aviso já ajudou a organizar a resposta local. Máscaras, insumos e testes de covid-19 estavam entre os materiais que as autoridades relataram ter disponibilizado; a comunicação sobre os riscos também foi reforçada. Os registros das consultas passaram a orientar tarefas concretas da vigilância.

Principais pontos

  • O Aesop foi desenvolvido por equipes da Fiocruz Bahia e da Coppe/UFRJ com registros que o SUS já produzia.
  • No piloto de 11 semanas no Amazonas, 104 avisos chegaram a 41 municípios; 86 foram confirmados pela vigilância local.
  • Em 62 dos avisos confirmados, o sistema deu a primeira informação sobre o surto; em 48, ajudou decisões de resposta.

Fontes

Voltar para o Blog