Ecossistema, educação e futuro da engenharia
Universitários brasileiros colocaram dois carros no topo de uma prova de engenharia
Em Camaçari, as equipes Cactus Baja e Caraubaja SAE resolveram o mesmo problema de engenharia por caminhos próprios: fazer um protótipo off-road funcionar em provas de projeto, desempenho e resistência. O resultado foi a dobradinha da UFERSA no Baja Nordeste de 2026.

A pista começa antes da largada
Um carro off-road de estudante precisa responder a perguntas que a sala de aula costuma deixar no papel. O chassi aguenta? A suspensão trabalha? O veículo mantém controle quando aceleração, tração e resistência entram na mesma prova? Na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), essas perguntas viraram um projeto com prazo, protótipo, teste e classificação.
Em 25 a 27 de setembro, no Senai Cimatec Park, em Camaçari, as equipes Cactus Baja, do campus Mossoró, e Caraubaja SAE, do campus Caraúbas, disputaram a 19ª Competição Baja SAE Brasil, Etapa Nordeste. As duas representavam a mesma universidade federal e terminaram nas duas primeiras posições.
O problema que a aula não resolve sozinha
O Baja SAE transforma o conteúdo de engenharia em um caso real de desenvolvimento de veículo. Os estudantes formam uma equipe, definem o projeto, detalham as soluções, constroem o protótipo e chegam à pista com a responsabilidade de fazê-lo funcionar. A competição compara projetos e desempenho em avaliações estáticas e dinâmicas.
Isso muda o tipo de erro que precisa ser resolvido. Uma decisão de projeto passa a aparecer na aceleração, na manobrabilidade, na tração ou no enduro. Esta última prova mede resistência mecânica e desempenho em condições extremas, por isso exige que o veículo entregue resultado depois de uma sequência de esforços, e não apenas uma boa apresentação técnica.
Mossoró vence pelo conjunto
A Cactus Baja UFERSA Mossoró venceu a classificação geral com 708,08 pontos. O placar veio de um desempenho distribuído: terceiro lugar na primeira etapa de projetos, segundo na apresentação de projetos, primeiro em suspensão, segundo em aceleração e enduro, além de terceiro em velocidade máxima e Super Prime. O protótipo precisou ser consistente em provas que pediam competências diferentes.
A vitória também consolidou uma sequência. Com o resultado, a equipe alcançou o pentacampeonato regional e se tornou bicampeã consecutiva, depois de vencer a edição de 2025. O coordenador do projeto, professor Zoroastro Torres Vilar, atribuiu o resultado ao trabalho dos estudantes e ao apoio institucional da UFERSA.
Danilo Cosmo Ferreira de Lima, capitão da equipe e estudante do sexto período de Ciência e Tecnologia, colocou o aprendizado no centro da conquista. A pista serviu para verificar se o conhecimento adquirido no curso conseguia virar um veículo que respondesse aos próprios problemas de engenharia.
Conquistar mais esse título pela Cactus Baja é sempre motivo de muito orgulho, pois representa a recompensa por todo o trabalho e dedicação ao longo do ano dentro do laboratório. É muito gratificante poder colocar em prática os conhecimentos adquiridos em sala de aula, enfrentar desafios reais e ver o resultado de todo esse esforço
Caraúbas leva novatos ao limite
A segunda equipe da UFERSA terminou a cerca de seis pontos da campeã. A Caraubaja SAE somou 702,37 pontos e ficou com o vice-campeonato, um resultado especialmente expressivo porque a formação era majoritariamente composta por estudantes novatos na disputa, incluindo o capitão e o piloto.
O grupo encontrou seu melhor resultado no enduro, em que ficou em primeiro lugar, e também venceu a Avaliação de Projeto Dinâmico. Terminou em segundo na manobrabilidade e em terceiro na tração. A equipe ainda chegou às quatro finais das provas de projeto, um feito inédito na trajetória da Caraubaja.
O orientador Diego Diniz descreveu a conquista como resultado da preparação e da capacidade de superar dificuldades ao longo da temporada. A classificação mostra o que uma equipe em formação precisa entregar para competir: um veículo suficientemente confiável para atravessar provas diferentes e um grupo capaz de decidir junto quando o projeto encontra a pista.
Quando o protótipo vira currículo
A literatura de educação em engenharia chama esse tipo de experiência de aprendizagem baseada em projetos. A proposta coloca o estudante no centro, integra teoria e prática para resolver um problema definido ou produzir um objeto final e organiza parte do aprendizado em torno de pesquisa, comunicação e trabalho em equipe.
A rotina das duas equipes materializa essa lógica sem precisar tratá-la como slogan. O objeto final tem rodas, suspensão, transmissão e freios que precisam operar juntos. O processo exige dividir responsabilidades, construir, testar, identificar o que falhou e melhorar antes da próxima prova. A UFERSA registra que os projetos estimulam justamente o trabalho em equipe, a resolução de problemas e a aplicação prática dos conhecimentos de engenharia.
Por isso, a dobradinha regional importa além do pódio. O resultado técnico já alcançado oferece aos estudantes uma referência concreta para o próximo projeto e dá à universidade um laboratório no qual o conhecimento passa por uma verificação pública, comparável e documentada.
A próxima prova já tem endereço
O resultado de Camaçari está concluído e registrado: duas equipes da UFERSA ocuparam as duas primeiras posições de uma etapa regional, com pontuações próximas e desempenhos diferentes nas provas. Mossoró confirmou uma sequência de títulos. Caraúbas alcançou seu melhor marco ao levar uma equipe majoritariamente novata às quatro finais de projeto.
A UFERSA informa que a Cactus Baja está entre as dez melhores equipes do país, em um universo de aproximadamente 70 participantes, e busca ampliar o reconhecimento e conquistar novos resultados na etapa nacional. O passo seguinte, portanto, será outra pista e outra comparação. A formação já deixou de ser exercício de sala: agora precisa sustentar a próxima versão do veículo.


