Inovação e Fronteiras
A macaúba quase não nascia. Uma parceria brasileira levou a germinação a mais de 80%
Em Montes Claros, pesquisadores da Unimontes e equipes brasileiras da Acelen substituíram o preparo manual da semente por uma linha automatizada. A germinação passou de 3% a 5% na natureza para mais de 80%, e a produção de mudas ganhou escala.

O gargalo começava antes da plantação
Em 9 de outubro de 2025, Victor Barra, diretor de Agronegócios da Acelen Renováveis, explicou ao AgFeed o problema que travava o projeto do Acelen Agripark, em Montes Claros (MG). Antes de virar óleo para combustíveis renováveis, a macaúba precisava passar pela etapa mais básica de qualquer lavoura: nascer.
Na natureza, apenas entre 3% e 5% das sementes desta palmeira nativa conseguem germinar. A parceria entre a Acelen e pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) alcançou taxas superiores a 80%. No mesmo complexo, processos robotizados passaram a preparar até 1,7 milhão de sementes por mês.
A macaúba, também chamada de bocaiuva, produz frutos com óleo de interesse para biocombustíveis e se multiplica por sementes. O endocarpo duro envolve a semente, bloqueia trocas gasosas e dificulta a entrada de água, justamente o começo do processo germinativo.
Para quem tenta cultivá-la, esperar o comportamento natural significa perder a maior parte das sementes e não saber quando a próxima muda aparecerá. O caminho anterior exigia um corte cirúrgico delicado na casca, perto do embrião, procedimento trabalhoso e sujeito a contaminações.
A preparação manual virou um processo de um segundo
O protocolo desenvolvido pela Unimontes com a Acelen enfraquece a proteção da semente sem o corte cirúrgico. Na biofábrica do Agripark, processos robotizados fazem a preparação em cerca de um segundo por unidade, antes da germinação.
Esse preparo recebe o nome de escarificação. O princípio é parecido com lixar de leve a casca de um feijão duro antes de deixá-lo de molho: a camada externa ganha uma passagem para a água, e a semente pode começar a absorver o que precisa para germinar.
A mudança reduz o trabalho de preparar cada unidade e abre caminho para levar o processo até as mudas acabadas que vão ao campo. Victor Barra resumiu o efeito prático da solução:
Reduzimos as perdas e trazemos uma mudança relevante na produção de mudas. Isso permite escalar com mais eficiência o processo até as mudas acabadas que vão ao campo. Ao mesmo tempo, facilita o manejo da semente dentro do laboratório.
A bancada passou a trabalhar em escala
Em 21 de agosto de 2026, o BiodieselBR e a Bahia Econômica registraram o primeiro ano de operação do Acelen Agripark. A biofábrica de Montes Claros tinha 1.500 metros quadrados de área de produção controlada e estrutura para escarificar 1,7 milhão de sementes por mês, num ritmo de aproximadamente uma unidade por segundo.
A escala alcança também a etapa seguinte. A linha automatizada de semeadura usa tubetes biodegradáveis e sistemas de rastreabilidade. O viveiro tem capacidade para produzir até 10,5 milhões de mudas por ano, enquanto o complexo reúne laboratório de pesquisa e desenvolvimento, usina-piloto e áreas experimentais.
A comparação que orienta o resultado é direta: em condições naturais, o índice varia entre 3% e 5%; nos estudos realizados em parceria com a Unimontes, as taxas superaram 80%. A produção de mudas em escala comercial passou a ter uma etapa de preparação compatível com esse volume.
As mudas já começaram a chegar ao campo
A aplicação imediata do processo é a produção de mudas. As tecnologias desenvolvidas no Acelen Agripark já começam a chegar ao campo e dão suporte à expansão do cultivo da macaúba em áreas degradadas.
Na cadeia planejada pela empresa, o cultivo da espécie abasteceria a futura produção de combustível sustentável de aviação e HVO, o diesel renovável. A etapa que já funciona está antes do combustível: preparar sementes e produzir mudas em escala comercial.
A semente que quase não germinava agora entra numa linha que prepara milhões de unidades por mês. Com as tecnologias do viveiro chegando ao campo, o gargalo deixou de ser apenas fazer a macaúba nascer e passou a incluir o cultivo que essas mudas já apoiam.
Principais pontos
- A parceria entre Unimontes e Acelen elevou a germinação da macaúba de 3% a 5% na natureza para taxas superiores a 80%.
- A biofábrica automatizada prepara até 1,7 milhão de sementes por mês, e as tecnologias já começam a apoiar o cultivo no campo.
Fontes
- Acelen Agripark completa um ano com biofábrica capaz de escarificar 1,7 milhão de sementes de macaúba por mês · Acelen Renováveis
- Acelen Agripark obtém avanços na viabilização do plantio comercial da macaúba · BiodieselBR.com
- Biofábrica do Acelen Agripark já escarificou 1,7 milhão de sementes de macaúba por mês em Minas · Bahia Econômica
- Os primeiros frutos do plano de R$ 16 bi da Acelen para turbinar a produção de macaúba com foco em biocombustíveis · AgFeed
- Open-access Enzyme activity and reserve mobilization during Macaw palm (Acrocomia aculeata) seed germination · Acta Botanica Brasilica / SciELO
- Protocolos de superação de dormência física e condicionamento de sementes de bocaiuva para pequenos produtores · Embrapa
- File: Macaúba (2) - 23 03 15S - 49 01 33W REFON.jpg · Wikimedia Commons


