Inovação e Fronteiras

A macaúba quase não nascia. Uma parceria brasileira levou a germinação a mais de 80%

Em Montes Claros, pesquisadores da Unimontes e equipes brasileiras da Acelen substituíram o preparo manual da semente por uma linha automatizada. A germinação passou de 3% a 5% na natureza para mais de 80%, e a produção de mudas ganhou escala.

Publicado em 22 de outubro de 2026 · 4 min de leitura · Brazilian Engineering
Frutos de macaúba, Acrocomia aculeata, em close sobre folhas verdes.
Foto: José Reynaldo da Fonseca / Wikimedia Commons (CC BY 2.5)

O gargalo começava antes da plantação

Em 9 de outubro de 2025, Victor Barra, diretor de Agronegócios da Acelen Renováveis, explicou ao AgFeed o problema que travava o projeto do Acelen Agripark, em Montes Claros (MG). Antes de virar óleo para combustíveis renováveis, a macaúba precisava passar pela etapa mais básica de qualquer lavoura: nascer.

Na natureza, apenas entre 3% e 5% das sementes desta palmeira nativa conseguem germinar. A parceria entre a Acelen e pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) alcançou taxas superiores a 80%. No mesmo complexo, processos robotizados passaram a preparar até 1,7 milhão de sementes por mês.

A macaúba, também chamada de bocaiuva, produz frutos com óleo de interesse para biocombustíveis e se multiplica por sementes. O endocarpo duro envolve a semente, bloqueia trocas gasosas e dificulta a entrada de água, justamente o começo do processo germinativo.

Para quem tenta cultivá-la, esperar o comportamento natural significa perder a maior parte das sementes e não saber quando a próxima muda aparecerá. O caminho anterior exigia um corte cirúrgico delicado na casca, perto do embrião, procedimento trabalhoso e sujeito a contaminações.

A preparação manual virou um processo de um segundo

O protocolo desenvolvido pela Unimontes com a Acelen enfraquece a proteção da semente sem o corte cirúrgico. Na biofábrica do Agripark, processos robotizados fazem a preparação em cerca de um segundo por unidade, antes da germinação.

Esse preparo recebe o nome de escarificação. O princípio é parecido com lixar de leve a casca de um feijão duro antes de deixá-lo de molho: a camada externa ganha uma passagem para a água, e a semente pode começar a absorver o que precisa para germinar.

A mudança reduz o trabalho de preparar cada unidade e abre caminho para levar o processo até as mudas acabadas que vão ao campo. Victor Barra resumiu o efeito prático da solução:

Reduzimos as perdas e trazemos uma mudança relevante na produção de mudas. Isso permite escalar com mais eficiência o processo até as mudas acabadas que vão ao campo. Ao mesmo tempo, facilita o manejo da semente dentro do laboratório.
— Victor Barra · diretor de Agronegócios da Acelen Renováveis

A bancada passou a trabalhar em escala

Em 21 de agosto de 2026, o BiodieselBR e a Bahia Econômica registraram o primeiro ano de operação do Acelen Agripark. A biofábrica de Montes Claros tinha 1.500 metros quadrados de área de produção controlada e estrutura para escarificar 1,7 milhão de sementes por mês, num ritmo de aproximadamente uma unidade por segundo.

A escala alcança também a etapa seguinte. A linha automatizada de semeadura usa tubetes biodegradáveis e sistemas de rastreabilidade. O viveiro tem capacidade para produzir até 10,5 milhões de mudas por ano, enquanto o complexo reúne laboratório de pesquisa e desenvolvimento, usina-piloto e áreas experimentais.

A comparação que orienta o resultado é direta: em condições naturais, o índice varia entre 3% e 5%; nos estudos realizados em parceria com a Unimontes, as taxas superaram 80%. A produção de mudas em escala comercial passou a ter uma etapa de preparação compatível com esse volume.

As mudas já começaram a chegar ao campo

A aplicação imediata do processo é a produção de mudas. As tecnologias desenvolvidas no Acelen Agripark já começam a chegar ao campo e dão suporte à expansão do cultivo da macaúba em áreas degradadas.

Na cadeia planejada pela empresa, o cultivo da espécie abasteceria a futura produção de combustível sustentável de aviação e HVO, o diesel renovável. A etapa que já funciona está antes do combustível: preparar sementes e produzir mudas em escala comercial.

A semente que quase não germinava agora entra numa linha que prepara milhões de unidades por mês. Com as tecnologias do viveiro chegando ao campo, o gargalo deixou de ser apenas fazer a macaúba nascer e passou a incluir o cultivo que essas mudas já apoiam.

Principais pontos

  • A parceria entre Unimontes e Acelen elevou a germinação da macaúba de 3% a 5% na natureza para taxas superiores a 80%.
  • A biofábrica automatizada prepara até 1,7 milhão de sementes por mês, e as tecnologias já começam a apoiar o cultivo no campo.

Fontes

Voltar para o Blog