Inovação e Fronteiras

O trem brasileiro que já levou mais de 20 mil passageiros sem tocar os trilhos

Na UFRJ, o MagLev-Cobra sustentou um veículo com passageiros usando supercondutores e ímãs. O experimento abriu caminho para levar a tecnologia à fabricação industrial.

Publicado em 22 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Protótipo branco do MagLev-Cobra sobre a via na estação de testes da UFRJ, fotografado em 2017.
Foto: ArlindoPereira / Wikimedia Commons · CC BY 4.0 (CC BY 4.0 · https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/)

Um trem brasileiro já transportou mais de 20 mil passageiros sem apoiar rodas sobre os trilhos. Na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, o MagLev-Cobra fez isso numa linha experimental de 200 metros da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sob o veículo, uma combinação de cerâmica resfriada e ímãs mantinha a cabine suspensa sobre a via.

O primeiro protótipo operou experimentalmente entre 2015 e 2020. Quem embarcava percorria a ligação entre dois centros de tecnologia do campus. Naquele trajeto curto, uma ideia que parece pertencer ao cinema de ficção científica passou a carregar gente de verdade.

Para a equipe, tirar o apoio das rodas era uma maneira de enfrentar um problema bem terrestre: como transportar pessoas em cidades com um veículo leve e menos atrito mecânico. A roda de um trem convencional sustenta o vagão e transmite forças ao trilho. No projeto da UFRJ, a sustentação passou a depender de uma interação magnética.

A cabine continuava precisando de uma via, energia para se deslocar e uma estrutura capaz de recebê-la. O que os pesquisadores mudaram foi a peça central dessa relação: o contato usado para sustentar o peso do veículo. Fazer essa troca funcionar com passageiros exigiu combinar física, engenharia elétrica e construção de um protótipo em escala real.

Uma cerâmica resfriada ocupa o lugar das rodas

O trabalho começou em 1998 e é coordenado pelo engenheiro eletricista Richard Magdalena Stephan, da Coppe/UFRJ. A pesquisa reuniu a Coppe, a Escola Politécnica e o Instituto de Física da universidade. Em vez de procurar uma roda mais eficiente, a equipe desenvolveu um sistema que mantém o veículo afastado da via.

Abaixo da cabine ficam caixas térmicas chamadas criostatos. Dentro delas, o nitrogênio líquido resfria uma cerâmica a cerca de 196 graus Celsius negativos. Nessa condição, o material se torna supercondutor e interage com o campo dos ímãs de terras raras instalados na via.

A força produzida nessa interação sustenta o trem. A estabilidade também importa: o veículo precisa permanecer alinhado, e não apenas subir por um instante. É essa combinação de sustentação e estabilidade que permite transformar o efeito físico em uma base para transportar passageiros.

O frio, portanto, tem uma função muito específica. Mantém a cerâmica na condição necessária para trabalhar com os ímãs. Para preservar a levitação, o sistema recebe reposição de nitrogênio líquido. O conjunto substitui o apoio mecânico das rodas por caixas térmicas que acompanham o veículo.

Para avançar pela linha, o MagLev-Cobra usa um motor elétrico de indução linear. Ele realiza o movimento ao longo da via, em vez de girar um eixo para mover rodas. Sustentar a cabine e fazê-la percorrer o trajeto são funções diferentes, resolvidas por partes distintas do projeto.

A linha de testes pôs os ímãs à prova

A primeira versão foi construída de forma artesanal. A linha elevada de 200 metros permitiu levar a pesquisa para o campus e repetir viagens com pessoas a bordo. A Coppe registra mais de 20 mil passageiros em quatro anos de operação experimental. Os resultados do primeiro ano de testes também chegaram a uma publicação científica, em 2016.

Levar passageiros dá outra dimensão ao desenvolvimento de um veículo. O conjunto precisa sustentar a cabine carregada, manter o funcionamento ao longo do trajeto e conviver com as condições do lugar onde foi instalado. O experimento colocou a engenharia diante de problemas que uma demonstração curta de levitação não resolveria sozinha.

Um deles apareceu nos próprios ímãs da via: a oxidação. A exposição durante os testes levou a equipe a identificar esse obstáculo e buscar uma proteção para o componente que ajuda a sustentar o trem. Uma pesquisa de doutorado de Ana Laura Campista, na Escola de Química da UFRJ, desenvolveu um revestimento para esses ímãs.

O percurso experimental também ajuda a entender a vocação do projeto. Sua proposta é o transporte urbano, em trajetos dentro de cidades, aeroportos ou entre municípios próximos. O foco está em aproximar lugares e transportar pessoas com uma estrutura leve, não em bater recordes de velocidade entre grandes capitais.

Construir outro igual tornou-se o próximo desafio

Depois de fazer o protótipo funcionar, surgiu uma tarefa diferente: fabricar uma versão que pudesse ser reproduzida. A empresa gaúcha Aerom construiu o novo modelo por um processo industrial, com mudanças nas portas, no isolamento e na automação. A passagem da montagem artesanal para a fabricação repetível é decisiva para produzir mais de um veículo.

Em 2024, Stephan explicou essa diferença ao descrever a nova versão:

Se for preciso construir um segundo veículo igual, conseguiremos fazer isso. Com o anterior, seria impossível
— Richard Magdalena Stephan · Engenheiro eletricista da Coppe/UFRJ e coordenador do MagLev-Cobra

Em 1º de outubro de 2026, a UFRJ licenciou a tecnologia à Aerom, autorizando a empresa a utilizá-la e fabricar a nova versão. O próximo passo anunciado é realizar novos testes com viagens diárias. A universidade entrega à parceira uma solução que já passou pela experiência de transportar passageiros.

O trem saiu de uma pergunta sobre como sustentar uma cabine e chegou a milhares de embarques numa via da UFRJ. Agora, a fabricação industrial põe outra exigência na frente da equipe: fazer a solução funcionar de maneira repetível, em veículos que possam sair de uma linha de produção.

Fontes

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