História e Legado

O carro que voltou da Amazônia movido a álcool nasceu de uma aposta brasileira

Em 1979, o engenheiro Urbano Ernesto Stumpf e sua equipe do CTA transformaram a dependência de petróleo importado em um problema de combustão e provaram a solução em um Dodge Polara que voltou da Amazônia após 20 mil milhas rodando com álcool puro.

Publicado em 20 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Carro movido a etanol sendo abastecido em um posto no Brasil
Foto: Mario Roberto Duran Ortiz / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A viagem que mudou o tanque

Em junho de 1979, um Dodge Polara brasileiro voltou ao centro de testes de motores a álcool, em São José dos Campos, depois de percorrer 20 mil milhas pela Amazônia, cerca de 32 mil quilômetros, usando álcool puro. A distância aparece numa reportagem contemporânea do The New York Times, que também identificou quem estava no centro daquele experimento: Urbano Ernesto Stumpf, engenheiro-chefe do laboratório do governo instalado no Centro Técnico Aeroespacial.

O carro era a resposta a um problema que não cabia numa sala de pesquisa. O Brasil precisava reduzir sua exposição ao petróleo importado, e o combustível de cana só ganharia escala se pudesse alimentar motores confiáveis em condições reais. A viagem deu ao debate uma medida concreta: o álcool podia sair do tanque de ensaio e sustentar um automóvel por milhares de quilômetros.

Quando o petróleo virou um problema de engenharia

O choque do petróleo dos anos 1970 transformou uma escolha energética em uma questão de engenharia. O governo brasileiro criou o Proálcool em 1975 para reduzir a dependência de óleo importado. Quando o preço internacional voltou a disparar em 1979, o país registrava déficit de 84,9% em petróleo, o maior de sua história, e os gastos com óleo consumiam quase metade das importações brasileiras.

Havia matéria-prima, mas isso não bastava. O etanol hidratado tinha de ser queimado dentro de motores desenhados para gasolina, com comportamento previsível, potência utilizável e manutenção possível. Resolver esse encaixe significava converter uma política energética em algo que motoristas, frotas e postos pudessem usar todos os dias.

A primeira fase do Proálcool, entre 1975 e 1979, combinou mistura obrigatória e subsídios e envolveu toda a cadeia de produção e consumo do etanol. A pesquisa histórica mostra por que a adaptação dos motores era a peça que faltava: sem ela, a expansão da lavoura e das destilarias não chegaria ao volante.

O que precisou mudar dentro do motor

A adaptação não consistia em trocar um líquido por outro. Para que a gasolina desse lugar ao álcool, os técnicos precisavam elevar a taxa de compressão, alterar o momento da ignição e enriquecer a mistura que entrava no carburador. Na proporção descrita pelo jornal, um motor a gasolina trabalhava com 14 partes de ar para uma de combustível; no motor a álcool, a mistura passava a nove para uma.

A combinação ajustava como o combustível entrava e queimava dentro do motor. A compressão maior, o novo ponto de ignição e a mistura mais rica precisavam trabalhar juntos para alimentar o automóvel com álcool.

Urbano Stumpf já trabalhava nessa direção havia décadas. Segundo o ITA, ele se formou na primeira turma de Engenharia Aeronáutica da instituição, em 1950, começou ali os estudos sobre a viabilidade do etanol ainda nos anos 1950 e depois coordenou estudos que forneceram a base tecnológica para os motores movidos a álcool no país.

Da bancada à frota

Na década de 1970, Stumpf e sua equipe realizaram no CTA pesquisas brasileiras sobre motores a etanol. A escolha do centro aeroespacial tinha uma consequência prática: o combustível precisava ser medido, testado e levado a situações que revelassem falhas antes de chegar ao uso cotidiano.

O ensaio do Dodge Polara foi acompanhado por outras provas de campo. Em 1979, dez frotas de governo e de empresas de serviço, somando cerca de 750 automóveis, já queimavam apenas álcool, segundo o relato publicado à época. Bombas específicas também haviam sido instaladas em postos selecionados de cinco grandes cidades. A engenharia começava a encontrar uma infraestrutura de uso.

O trabalho brasileiro não terminou no protótipo. A pesquisa histórica sobre o Proálcool registra que, na fase de 1979 a 1985, veículos E100, movidos a etanol hidratado puro, foram lançados depois de testes em frotas governamentais e protótipos das subsidiárias locais de Volkswagen, General Motors, Ford e Fiat.

A demonstração também precisava atravessar a política. O jornal registrou que Stumpf convenceu o então presidente Ernesto Geisel a dirigir um carro movido a álcool quatro anos antes da reportagem. O gesto não substituía os ensaios, mas levava a solução do laboratório para a decisão pública.

O resultado ficou maior que o carro

O resultado histórico pode ser medido na escala que veio depois. Em 1986, as vendas de veículos E100 já representavam 92% do mercado brasileiro de veículos leves. A produção de etanol, que era de 0,6 bilhão de litros em 1975, ultrapassou 12,7 bilhões de litros em 1992.

O trabalho de Stumpf e da equipe do CTA ajudou o álcool a deixar a bancada e entrar em frotas de uso diário. Quando a viagem amazônica foi noticiada, cerca de 750 veículos de governo e empresas de serviço já rodavam só com esse combustível. A adaptação do motor já tinha encontrado o motorista, o posto e a estrada.

Fontes

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