Ecossistema, educação e futuro da engenharia
A horta que nasceu da poça do ar-condicionado e chegou à merenda da escola
Em Campo Grande, quatro estudantes da Escola Clarinda Mendes de Aquino captaram a água dos aparelhos, montaram uma horta de 40 vasos e levaram as hortaliças à merenda escolar.

A poça no caminho dos banheiros
Em 2026, na Escola Estadual Professora Clarinda Mendes de Aquino, em Campo Grande, o professor de Matemática Reginaldo Vantini Júnior levou um problema do corredor para a sala de aula. A água escorria dos aparelhos de ar-condicionado, atingia as paredes e deixava o piso molhado no acesso aos banheiros. Ele pediu aos alunos que medissem quanto saía de um dreno por uma hora.
A medição transformou um incômodo em pergunta. Quanto daquela água aparecia ao longo de um dia? E que destino ela poderia ter depois de retirada do caminho? Quatro estudantes do segundo ano do ensino médio levaram a investigação adiante. A EcoHorta Inteligente uniu a captação do líquido a sensores e a um experimento de cultivo na própria escola.
A conta começou no corredor
Os estudantes coletaram a água diretamente do dreno de um aparelho e usaram volume e área para estimar a produção em escalas maiores. A conta ajudou a dimensionar o desperdício, mas deixou uma decisão em aberto: guardar o líquido resolveria a poça, porém ainda faltaria um destino para o recurso.
O primeiro captador foi feito com canos, tampas e uma torneira. A montagem conduzia a água para fora do corredor e abriu espaço para uma pergunta mais ambiciosa: seria possível usá-la para cultivar plantas na própria escola? A equipe levou a coleta para uma horta vertical e transformou o experimento em parte da rotina escolar.
A escolha deu um lugar concreto para a matemática. Cada medida passou a acompanhar uma ação visível, desde a água que deixava o dreno até as folhas que cresciam nos vasos. A proposta também juntou conhecimentos de biologia, química e tecnologia, conforme os alunos pesquisavam para entender o que estavam observando.
Quarenta vasos para comparar duas águas
A horta experimental permite observar duas condições de irrigação lado a lado. Parte das plantas recebe água condensada dos aparelhos; outra parte recebe água potável. Os estudantes acompanham semanalmente o desenvolvimento dos grupos e usam esse contraste para investigar o reúso dentro do mesmo ambiente escolar.
A origem da água se torna uma pergunta que pode ser acompanhada ao longo do tempo. A turma mede as condições dos vasos e registra o crescimento das plantas, em vez de ficar apenas com a impressão de que uma delas cresceu mais. Os gráficos ajudam os estudantes a discutir o que observaram e a organizar as próximas medições.
A estudante Isabela Lopes Rodrigues, de 17 anos, entrou no projeto quando a ideia inicial já existia. Ao explicar o que o grupo queria fazer, ela resumiu a decisão que tirou a água do corredor e a levou para a horta.
Não só guardar essa água, tirar ela do meio do caminho, mas também reutilizá-la. Dar um outro propósito para ela
Sensores fazem a horta responder
A equipe instalou sensores para medir umidade do solo, temperatura, umidade relativa do ar, pressão atmosférica e fluxo de água. Os dados aparecem em gráficos e estatísticas que os próprios alunos analisam para acompanhar o crescimento das plantas e quanto da condensação está sendo aproveitada.
A captação funciona como uma pequena calha ligada ao cultivo. A diferença é a origem do fluxo: em vez de receber água da chuva, o sistema conduz o líquido que se forma no aparelho e sai pelo dreno. A comparação com água potável acontece nos vasos, enquanto os sensores registram as condições que podem alterar o desenvolvimento das plantas.
A montagem também mudou o papel dos estudantes. Alguns se concentraram na programação, outros no desenho e na organização da solução. O grupo precisou dividir tarefas, procurar literatura científica e transformar observações em registros que pudessem ser discutidos por toda a equipe.
Uma aula que virou pesquisa
Rafael Moraes Lemes Pereira, de 17 anos, passou a relacionar a matemática a situações que observa fora dos exercícios escolares. Sara dos Santos Louveira, de 16 anos, começou a pesquisar assuntos que conhecia pouco. A coleta de água, o cultivo e a análise dos dados deram aos estudantes tarefas concretas para essas descobertas.
Vantini orientou o trabalho desde a pergunta inicial. A escola mantém 13 projetos aprovados pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, com quatro bolsistas em cada um e mais de 50 estudantes envolvidos. Nesse ambiente, a EcoHorta dá continuidade à aprendizagem: a informação medida volta para uma decisão sobre o cultivo.
A mentoria do Solve for Tomorrow ajudou a equipe a organizar a próxima etapa. O grupo passou a pensar em como os registros poderiam orientar usos fora da escola, sem abandonar o experimento que já funciona na horta.
Levar a captação para outras casas
A equipe trabalha agora num aplicativo para mostrar como a água dos aparelhos pode ser reaproveitada em residências. A proposta é orientar a irrigação de plantas e outras atividades que não exigem água potável. Os registros reunidos na escola servem de ponto de partida para organizar essa ferramenta.
As hortaliças cultivadas já foram usadas na merenda. A água que antes precisava ser retirada do corredor ganhou um destino dentro da escola, e a experiência deixou de terminar na medição do dreno. Os estudantes seguem acompanhando o cultivo para transformar cada novo registro em uma pergunta que possam testar.
Fontes
- Estudantes de Campo Grande (MS) são semifinalistas do Solve for Tomorrow com projeto de captador inteligente de água para reuso · Samsung Newsroom Brasil
- Água que escorria no corredor vira horta e projeto científico em escolas de MS · Campo Grande News
- Projetos de MS sobre reúso de água de ar-condicionado são semifinalistas em programa da Samsung · A Crítica de Campo Grande


