Engenharia Brasileira em Ação
Um trem sem motor a bordo: a tecnologia brasileira que liga Guarulhos aos trilhos
Criada pelo gaúcho Oskar Coester, a tecnologia brasileira já foi usada por mais de 450 mil passageiros para ligar os terminais do aeroporto à linha de trens metropolitanos.

Depois do desembarque, ainda falta chegar ao trem
Para quem desembarca num aeroporto, a viagem pode continuar por uma plataforma, uma escada rolante e outro veículo. A qualidade dessa conexão decide se o transporte público ajuda ou se o passageiro volta para o carro.
Em Guarulhos, um veículo desenvolvido no Brasil faz essa ligação usando a força do ar. Criada pelo gaúcho Oskar Hans Wolfgang Coester, a tecnologia mantém os motores fora dos carros. Mais de 450 mil passageiros usaram a conexão entre dezembro de 2025 e setembro de 2026, durante a pré-operação do sistema.
A linha percorre 2,7 quilômetros dentro do complexo aeroportuário. Suas quatro estações atendem os terminais 1, 2 e 3 e a estação Aeroporto-Guarulhos da Linha 13-Jade, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Para o viajante, o sistema ocupa justamente o intervalo entre sair do avião e entrar na rede de transporte da cidade.
O problema começou no pátio de um aeroporto
Em 1959, no pátio do Aeroporto de Seattle, Coester ouviu do empresário Rubem Berta uma observação sobre a aviação: aumentar a velocidade do avião não resolvia o tempo gasto para chegar ao aeroporto. O brasileiro, que trabalhava na equipe técnica da Varig, passou a investigar o trecho no chão.
Nascido em Pelotas, Coester desenvolveu seus próprios projetos a partir da experiência na aviação. A ideia usava veículos leves em vias elevadas, automação e a força do ar. Um protótipo para uma pessoa, feito na oficina de sua fábrica, virou uma linha de demonstração na Feira de Hannover três anos depois.
O sistema demorou a encontrar uma aplicação comercial, mas a pergunta original permaneceu: como conectar um aeroporto à rede de transporte sem colocar outro motor pesado em cada carro?
O ar empurra uma placa dentro da via
O Aeromóvel corre sobre rodas de aço, mas elas não fornecem a força de tração. Ventiladores estacionários pressurizam o ar dentro de um duto instalado na via elevada. A pressão empurra ou puxa uma placa presa ao veículo, e essa placa transmite o movimento ao carro.
O mecanismo lembra o pistão de uma bomba de ar: a pressão atua numa das faces e faz a peça se mover dentro do tubo. No Aeromóvel, a placa está presa ao carro por uma ligação que atravessa a via. As rodas sustentam e guiam o veículo; a força que o desloca vem do ar controlado no duto.
Como os ventiladores e os motores ficam fora dos veículos, os carros não carregam o conjunto de propulsão nem uma transmissão. Isso reduz o peso embarcado e deixa os equipamentos de força em pontos técnicos junto às estações ou ao solo, onde podem ser mantidos sem retirar o motor de cada composição.
Porto Alegre provou que a ideia podia carregar gente
A conexão aeroportuária comercial chegou a Porto Alegre em agosto de 2013. A linha ligou o Aeroporto Internacional Salgado Filho à estação do trem metropolitano próxima. Foi uma aplicação direta do problema que Coester tinha ouvido décadas antes: fazer o passageiro completar a viagem terrestre sem depender do trânsito nas ruas.
Até outubro de 2016, a linha havia transportado mais de 3 milhões de passageiros. O trajeto de pouco mais de um quilômetro, que podia ser feito a pé ou de ônibus, passou a levar menos de dois minutos no Aeromóvel. Essa primeira conexão ajudou a levar o sistema do terreno da demonstração para uma rotina de embarque e desembarque.
O serviço de Porto Alegre foi interrompido pela enchente de maio de 2024. Guarulhos recebeu uma aplicação mais extensa da mesma tecnologia, reunindo os três terminais numa linha que continua até a estação metropolitana. A engenharia precisou organizar a circulação dos veículos ao longo de um caminho com várias paradas.
Os equipamentos de força ficam na via
A Aerom lidera o consórcio AeroGRU, responsável pelo sistema de Guarulhos. O projeto prevê dois veículos em circulação e um terceiro de reserva. A capacidade nominal é de 2 mil usuários por hora em cada sentido, e o trajeto completo foi projetado para durar cerca de seis minutos.
O controle do ar é separado por circuitos independentes para cada carro. Essa organização permite comandar o movimento a partir da infraestrutura fixa, mantendo os equipamentos de propulsão em pontos técnicos próximos às estações ou ao solo. O trabalho de manutenção se concentra nesses equipamentos, enquanto o veículo carrega os passageiros.
Em setembro de 2026, técnicos da Agência Nacional de Aviação Civil e auditores do Tribunal de Contas da União acompanhavam inspeções, testes e comissionamento. A conclusão dessa etapa permite avançar para a operação plena. Para quem desembarca, a utilidade é concreta: sair de qualquer um dos três terminais e chegar à Linha 13-Jade pelo mesmo sistema.
Fontes
- The Wind Boy: a story of life, work and selflessness · Aerom Sistemas de Transporte
- How the Aeromovel Works? · Aerom Sistemas de Transporte
- Guarulhos · Aerom Sistemas de Transporte
- Aeromovel de Guarulhos chega a 450 mil passageiros no dia do prazo para operação plena · MetrôCPTM, Ricardo Meier
- The Aeromovel Project for Airport Applications · ASCE Library, Automated People Movers and Automated Transit Systems 2016
- ANPTrilhos visita Aeromóvel de Guarulhos e destaca tecnologia brasileira para mobilidade do futuro · ANPTrilhos
- Porto Alegre · Aerom Sistemas de Transporte


