Engenharia Brasileira em Ação
Para medir o desmatamento sob nuvens, o Brasil combinou satélites e radar
O INPE transformou imagens em mapas que orientam a fiscalização. A estimativa amazônica de 2026 caiu 41,8% frente ao ciclo anterior e chegou ao menor valor desde 1988.

Em outubro, o INPE mostrou o que havia desaparecido da floresta
Em 16 de outubro de 2026, no Salão Leste do Palácio do Planalto, em Brasília, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apresentou uma estimativa de desmatamento que ficou abaixo de todos os anos anteriores da série amazônica. Cláudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento dos Biomas Brasileiros, participou da divulgação. A equipe havia transformado imagens de um território continental em áreas que podiam ser localizadas e comparadas.
Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a perda estimada de cobertura florestal na Amazônia Legal foi de 3.335 quilômetros quadrados. No ciclo anterior, haviam sido 5.731 quilômetros quadrados. A redução foi de 41,8%, e o novo valor estimado ficou abaixo do menor registro anterior, os 4.571 quilômetros quadrados de 2012. Para chegar ao resultado, os técnicos precisaram enxergar o terreno mesmo quando nuvens escondiam a superfície.
A nuvem levou a equipe da fotografia para o radar
A maior parte do levantamento usou imagens dos satélites Sentinel-2, que registram a luz refletida pelo terreno. Quando nuvens e sombras bloqueavam essa observação, a equipe recorria ao Sentinel-1, equipado com radar. O radar envia ondas e mede seu retorno; a observação óptica depende da luz que consegue chegar ao sensor. Essa combinação permitiu preencher regiões que ficariam ocultas em uma fotografia convencional.
É como observar uma rua pela janela e acrescentar um instrumento que envia sinais quando a cortina impede a vista. Os dois registros chegam por caminhos físicos diferentes, mas ajudam a localizar a mesma superfície. No monitoramento, eles são organizados em imagens com posição geográfica conhecida, para que uma abertura identificada em uma data possa ser conferida nas seguintes.
Os satélites Sentinel pertencem ao programa europeu Copernicus. O trabalho brasileiro está no processamento e na organização das imagens pelo Brazil Data Cube, iniciativa do INPE que prepara os dados para análise, e no método do Prodes que transforma as áreas observadas em uma série anual. O instituto opera essa infraestrutura dentro do programa BiomasBR.
Cada clareira precisa entrar na mesma medida de todos os anos
Depois de enxergar o terreno, os técnicos desenham o contorno das áreas onde a cobertura florestal primária foi removida. Esse contorno forma um polígono cuja área pode ser calculada e registrada no mapa. A classificação também inclui o estágio final de degradação em que desaparece o dossel, a cobertura formada pelas copas das árvores.
O levantamento identifica aberturas maiores que um hectare. Na taxa amazônica, entram os polígonos superiores a 6,25 hectares, mantendo o critério da série iniciada em 1988. Um hectare corresponde a um quadrado de 100 metros de lado. Preservar o tamanho mínimo permite acompanhar a mudança na floresta sem trocar a unidade de observação a cada edição.
O território da Amazônia Legal ocupa 516 recortes do Brazil Data Cube. Para a estimativa divulgada em outubro, foram analisados 271 recortes prioritários, escolhidos pelas ocorrências anteriores, pelos avisos recentes e pelos municípios destinados à fiscalização. Eles cobriram a região onde se concentravam 97,68% dos desmatamentos registrados pelo Prodes em 2025. A concentração espacial permitiu antecipar o resultado anual enquanto o restante do processamento continuava.
O Cerrado também chegou ao menor valor da sua série
No Cerrado, o mapeamento cobriu os 265 recortes do bioma e registrou 5.516,69 quilômetros quadrados de vegetação nativa suprimida. O ciclo anterior havia chegado a 7.235,27 quilômetros quadrados. A queda foi de 23,75%, o menor resultado da série desse bioma, iniciada em 2001.
Esse levantamento considera formações florestais, savânicas e campestres. A região onde um satélite encontra vegetação retirada pode ter aparência diferente da floresta amazônica, mas a equipe precisa igualmente definir o que perdeu cobertura e registrar o período. O Prodes Cerrado concluiu o mapa de todo o bioma; o trabalho amazônico segue até completar todos os recortes.
O mapa dá aos fiscais um lugar onde procurar
As séries históricas, os mapas e os arquivos espaciais ficam disponíveis no TerraBrasilis, a plataforma pública do INPE. Órgãos de fiscalização podem cruzar uma área mapeada com autorizações e informações territoriais para investigar o que ocorreu naquele lugar. O dado deixa de ser apenas uma cifra nacional e passa a apontar estados, municípios e polígonos no chão.
O acompanhamento diário tem outro ritmo. O Deter emite avisos próximos do tempo real para orientar equipes de fiscalização; o Prodes produz o levantamento anual. O aviso ajuda a localizar uma mudança recente, e o mapa anual permite comparar o que ocorreu em períodos completos. Juntos, os produtos fornecem à operação de campo tanto a localização dos sinais novos quanto o retrato acumulado do ciclo.
O INPE completará o processamento dos 516 recortes amazônicos para apresentar a taxa consolidada no primeiro semestre de 2027. Enquanto isso, os órgãos de fiscalização já podem baixar no TerraBrasilis os arquivos da estimativa e do mapeamento do Cerrado, localizar a supressão e organizar a próxima vistoria.
Principais pontos
- O INPE combina imagens ópticas e radar no Prodes para mapear a supressão da vegetação e produzir uma série anual comparável.
- Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a estimativa amazônica foi de 3.335 km², contra 5.731 km² no ciclo anterior, queda de 41,8%.
- Os mapas e arquivos espaciais do Prodes ficam disponíveis no TerraBrasilis para consulta e uso por órgãos de fiscalização.


