Inovação e Fronteiras
Em teste de bancada, bagaço de cana virou gel para controlar solvente em obras delicadas
Camila Rezende e Camilla Camargos combinaram nanocelulose de bagaço de cana com gelatina ou alginato para formar folhas que carregam o líquido de limpeza e limitam sua penetração. O resultado já produzido é experimental: folhas de aproximadamente 10 por 10 centímetros ficam prontas em até 48 horas.

Em Florença, uma reação inesperada apontou o caminho
Em 2020, durante um período de pesquisa na Universidade de Florença, na Itália, Camilla Camargos acrescentou ácido a um experimento com nanocelulose e observou a formação inesperada de um gel contínuo e rígido. A pergunta seguinte era se aquela estrutura poderia ajudar a limpar obras de arte.
A ideia juntou duas especialidades. Camargos, formada em conservação e restauração de bens culturais, levou o problema das superfícies frágeis. Camila Rezende, professora do Instituto de Química da Unicamp, já pesquisava celulose e materiais derivados de biomassa. A colaboração resultou em uma formulação patenteada pelas duas universidades.
Limpar uma obra exige controlar o quanto de líquido chega à superfície
Ao remover poeira, resíduos ou uma camada de verniz degradado, o conservador pode querer agir só na superfície. Água ou solvente aplicados livremente podem atravessar essa camada, atingir tinta, fibras ou inscrições que deveriam permanecer intactas e evaporar antes do fim do procedimento.
Um cotonete oferece controle limitado sobre o volume que entra no material. Já existem formulações preparadas com gomas, agarose ou derivados de celulose, mas algumas retêm pouca água ou deixam resíduos em papel e tecido. Géis prontos feitos com polímeros sintéticos são comercializados principalmente fora do Brasil, e custo e importação limitam o acesso.
A rede de polímeros carrega o solvente e libera o fluido aos poucos
Camargos e Rezende produziram nanocelulose a partir do bagaço de cana-de-açúcar e combinaram esse material com outros biopolímeros. A formulação tem dois sistemas: um com gelatina e outro com alginato, um tipo de carboidrato obtido de algas. Cada mistura forma a estrutura que leva o líquido de limpeza até a superfície.
As ligações entre as cadeias dos polímeros formam uma rede tridimensional. Seus espaços internos determinam quanto líquido fica preso e quanto é liberado durante a aplicação. A estrutura lembra uma esponja pela capacidade de reter fluido, mas a comparação para aí: o desempenho depende da porosidade e das ligações ajustadas pelas pesquisadoras.
Ele funciona como uma plataforma para a aplicação desse fluido de limpeza. Como o fluido está preso dentro do gel, ele não vai penetrar tanto, o que afetaria camadas que deveriam ser preservadas
O primeiro gel quebrava, e a equipe refez a formulação
A primeira versão não resistia ao manuseio necessário. Nos anos seguintes, o grupo modificou a formulação para aumentar a resistência, controlar a retenção de líquidos, evitar a liberação de resíduos e permitir que o gel fosse armazenado pronto para uso.
Esse ajuste é decisivo para a conservação. O material precisa ser maleável para acompanhar a superfície, mas não pode se romper quando é aplicado. Também precisa segurar o fluido tempo suficiente para que o procedimento tenha contato controlado com a camada tratada.
O resultado ainda cabe numa folha de 10 por 10 centímetros
A equipe já consegue produzir folhas de hidrogel de aproximadamente 10 por 10 centímetros, prontas para uso em até 48 horas. Um lado da folha de gel mede menos que metade da largura de uma folha A4, que tem 21 centímetros: o material permite tratar uma pequena região da obra por vez.
A produção permanece em bancada. Para levar as folhas a museus e arquivos em maior escala, o grupo trabalha na formulação, nos protocolos de teste e na avaliação do desempenho ao longo do tempo.
A próxima prova é adaptar o gel ao relevo de cada superfície
O grupo busca aumentar o controle da retenção e da liberação de água para ajustar cada formulação à superfície tratada. Outra frente é tornar o gel mais flexível para acompanhar relevos acentuados, ondulações e pequenas ranhuras sem se romper.
Na bancada, a rede de polímeros precisa continuar inteira quando acompanha as irregularidades da obra. Esse é o próximo ajuste das pesquisadoras: controlar a passagem do líquido sem perder a flexibilidade que permite encostar a folha em superfícies delicadas.
Principais pontos
- Camila Rezende, da Unicamp, e Camilla Camargos, da UFMG, desenvolveram um hidrogel de nanocelulose do bagaço de cana para carregar água e solventes na limpeza de obras delicadas.
- A formulação combina nanocelulose com gelatina ou alginato e cria uma rede que retém e libera o fluido gradualmente, limitando sua penetração.
- Em bancada, as pesquisadoras produzem folhas de aproximadamente 10 por 10 centímetros em até 48 horas e trabalham para ampliar a produção.
Fontes
- Hidrogel de bagaço de cana ajuda a conservar obras de arte · Jornal da Unicamp
- Bagaço de cana é matéria-prima para géis usados na limpeza e conservação de obras de arte · Inova Unicamp
- Bagaço de cana dá origem a géis para limpar obras de arte · CicloVivo
- Química verde e a conservação da arte · Instituto de Química da Unicamp
- Dimensões do papel A4 — referência de escala · Brother, suporte técnico


