Inovação e Fronteiras

Gel de bagaço de cana controla líquido na limpeza de obras delicadas

Em testes de bancada, Camila Rezende, da Unicamp, e Camilla Camargos, da UFMG, combinaram nanocelulose de bagaço com outros polímeros para reter água e solventes. O material já é produzido em pequenas folhas para aplicação localizada.

Publicado em 29 de outubro de 2026 · 4 min de leitura · Brazilian Engineering
Mão com luva azul aplica uma folha translúcida de hidrogel sobre um documento antigo manuscrito durante um teste de conservação.
Foto: Igor Alisson / Inova Unicamp (Permissão de reprodução da Inova Unicamp, condicionada à citação da Agência de Inovação Inova Unicamp e dos autores/fotógrafos indicados, sem alteração do sentido original.)

Uma limpeza de obra começa pelo quanto de líquido chega à superfície

Limpar uma pintura, um papel antigo ou um tecido exige precisão. Água e solventes usados para retirar poeira, resíduos ou verniz degradado podem atravessar a camada que o conservador pretendia tratar e alcançar tinta, fibras ou inscrições que deveriam permanecer intactas.

A aplicação com cotonete oferece controle limitado sobre quanto líquido atravessa as camadas da obra. Esse é o problema que Camila Rezende, do Instituto de Química da Unicamp, e Camilla Camargos, da UFMG, decidiram atacar juntas.

Restauradores também preparam seus próprios géis a partir de gomas, agarose ou derivados de celulose. Algumas dessas formulações retêm pouca água ou deixam resíduos em materiais porosos. Já os géis sintéticos prontos para uso são comercializados principalmente fora do Brasil, e custo e importação dificultam o acesso no país. As pesquisadoras escolheram polímeros de origem natural disponíveis no Brasil para desenvolver a alternativa.

Uma rede de polímeros carrega o fluido sem deixá-lo avançar demais

O hidrogel integra uma patente com titularidade compartilhada pela Unicamp e pela UFMG. Camargos, formada em conservação e restauração, levou o problema das obras ao doutorado orientado por Rezende, que já pesquisava celulose e materiais de biomassa.

Ele funciona como uma plataforma para a aplicação desse fluido de limpeza. Como o fluido está preso dentro do gel, ele não vai penetrar tanto, o que afetaria camadas que deveriam ser preservadas
— Camilla Camargos · pesquisadora da UFMG

A ideia nasceu quando a nanocelulose formou um gel inesperado

Em 2020, durante um período de pesquisa na Universidade de Florença, na Itália, Camilla Camargos acrescentou ácido a um experimento com nanocelulose e observou a formação inesperada de um gel contínuo e rígido. A pergunta seguinte foi se aquela estrutura poderia ser adaptada para limpar obras de arte.

A formulação patenteada utiliza nanocelulose produzida a partir do bagaço de cana-de-açúcar e a combina com gelatina ou alginato, um polissacarídeo obtido de algas. São dois sistemas de formulação, com componentes disponíveis comercialmente. A mistura precisa formar uma rede resistente para ser manuseada, flexível para acompanhar a superfície e porosa o bastante para reter o líquido.

O primeiro material quebrava; a equipe ajustou a rede

A primeira versão do gel se partia com facilidade; os anos seguintes foram usados para aumentar a resistência, controlar a retenção de líquidos, evitar resíduos e permitir que o material fosse armazenado pronto para uso. As pesquisadoras testaram diferentes formas de criar ligações entre as cadeias dos polímeros, porque essas ligações definem quanto líquido fica preso e quanto sai durante a aplicação.

A estrutura lembra uma esponja, com muito mais líquido do que material sólido. As ligações entre as cadeias dos polímeros criam a rede tridimensional; sua porosidade influencia a retenção e a liberação do fluido. O gel pode ser armazenado pronto para uso.

Hoje o teste cabe em uma folha de 10 por 10 centímetros

As pesquisadoras já produzem folhas de hidrogel de aproximadamente 10 × 10 cm, prontas para uso em até 48 horas. Esse formato permite aplicar o material em uma região pequena de uma pintura ou de um documento.

A próxima etapa é adaptar a folha ao relevo de cada obra

O grupo busca aumentar o controle da retenção e da liberação de água para ajustar cada formulação à superfície tratada. Também trabalha para tornar o gel mais flexível, capaz de acompanhar relevos, ondulações e pequenas ranhuras sem se romper.

Principais pontos

  • Camila Rezende, da Unicamp, e Camilla Camargos, da UFMG, desenvolveram um hidrogel de nanocelulose do bagaço de cana para carregar água e solventes na limpeza de obras delicadas.
  • A formulação patenteada combina a nanocelulose com gelatina ou alginato e libera o fluido gradualmente, limitando a penetração em camadas que precisam ser preservadas.
  • Em bancada, as pesquisadoras produzem folhas de aproximadamente 10 × 10 cm em até 48 horas e trabalham para adaptar a flexibilidade do gel a relevos e ranhuras.

Fontes

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