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A cientista que ajudou a soja brasileira a dispensar adubo nitrogenado

Johanna Döbereiner apostou em bactérias adaptadas aos solos tropicais. A linha de pesquisa que ajudou a construir chegou a inoculantes usados em 85% da área brasileira de soja, segundo o retrato de 2025.

Publicado em 26 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Lavoura de soja em Brasnorte, Mato Grosso, com fileiras verdes de plantas sob um céu com nuvens. Fotografia contextual.
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil (CC BY 3.0 BR)

Uma lavoura que procurava nitrogênio

Uma planta de soja precisa de nitrogênio para crescer, mas a lavoura não precisa receber esse elemento apenas em sacos de adubo. Nas raízes, certas bactérias conseguem capturar o nitrogênio do ar e transformá-lo em uma forma que a planta aproveita. A decisão de levar essa parceria a milhões de hectares começou com uma cientista que escolheu o Brasil como pátria.

Em 1951, no Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícolas, em Seropédica, então município de Itaguaí, o agrônomo Álvaro Barcellos Fagundes contratou Johanna Döbereiner como assistente de pesquisa. Ela tinha acabado de chegar ao país e ainda não era especialista em microbiologia do solo. Quando Fagundes perguntou se ela poderia se tornar uma, Johanna respondeu com a segurança que guiaria sua carreira.

Döbereiner fez do estudo dos microrganismos uma carreira. Naturalizou-se brasileira em 1956 e passou a investigar as relações entre plantas, solo e bactérias nas condições tropicais. A preparação em microbiologia lhe deu ferramentas para questionar uma decisão que parecia estabelecida na agricultura: fornecer o nitrogênio da lavoura por adubação mineral.

Não sou uma especialista em microbiologia do solo. Mas se o senhor quiser que eu seja, serei.
— Johanna Döbereiner · engenheira agrônoma e pesquisadora

Quando o adubo parecia o único caminho

Na década de 1960, os fertilizantes nitrogenados minerais eram uma aposta dominante para elevar a produção. Döbereiner trabalhou numa direção diferente: estudar até onde a associação entre plantas e bactérias poderia fornecer esse nutriente. A alternativa precisava funcionar no solo e no clima brasileiros, além de enfrentar o descrédito de boa parte dos cientistas.

Entre 1963 e 1969, a agrônoma iniciou um programa sobre os fatores que limitavam a fixação biológica de nitrogênio em leguminosas tropicais. O problema era tornar a parceria eficiente o suficiente para chegar ao campo. Escolher uma bactéria capaz de capturar o elemento seria apenas o começo; ela também precisava se associar bem às plantas cultivadas aqui.

O trabalho também tinha uma consequência econômica imediata. Cada aplicação de fertilizante acrescentava uma despesa ao produtor e ampliava a exposição da lavoura a um insumo cuja fabricação e uso podiam afetar rios e solo. Se as raízes conseguissem obter parte essencial do nutriente por outro caminho, a conta da produção mudaria junto com o método.

A fábrica microscópica na raiz

O inoculante coloca bactérias em contato com a semente. Elas vivem em associação com as raízes das leguminosas, formam nódulos e transformam o nitrogênio atmosférico numa forma que a planta aproveita. São os rizóbios. A relação funciona como uma pequena fábrica de nutriente instalada na raiz: a bactéria realiza a transformação biológica, enquanto a planta recebe o nitrogênio necessário ao crescimento.

A equipe da Embrapa selecionou grupos de rizóbios adaptados ao solo, ao clima e às variedades de soja brasileiras. A adaptação importava tanto quanto a capacidade de fixar nitrogênio. O inoculante teria de reunir microrganismos que trabalhassem bem com a planta e continuassem eficientes nas condições reais de cultivo.

O programa brasileiro de melhoramento da soja, iniciado em 1964, incorporou essa alternativa. A aposta de Döbereiner ajudou a orientar a cultura para associações eficientes com bactérias. Com essa parceria, a soja passou a obter nitrogênio sem receber o adubo mineral que forneceria o mesmo elemento.

A conta mudou junto com a semente

A economia aparece na escolha que o produtor faz por hectare. O retrato da tecnologia publicado em 2025 pela World Food Prize Foundation apresenta um contraste: de 30 a 50 quilos de fertilizante sintético, a cerca de 1 dólar por quilo, frente a inoculantes bacterianos que podem custar de 2 a 3 dólares por hectare e fornecer o nitrogênio da cultura.

Para a lavoura, essa diferença troca uma despesa em dezenas de dólares por uma aplicação de poucos dólares na mesma unidade de área. A seleção de microrganismos, desenvolvida ao longo de décadas, passou a ter efeito no custo do cultivo. A fixação biológica também reduz a dependência de fertilizantes nitrogenados minerais.

Os inoculantes começaram a ser usados em larga escala na soja na década de 1970. A prática reuniu duas frentes de pesquisa: as variedades vegetais e os microrganismos que se associam às suas raízes. Essa combinação levou a hipótese sobre bactérias para a semente plantada pelo agricultor.

Uma prática que ficou no campo

Döbereiner morreu em 5 de outubro de 2000, em Seropédica, aos 75 anos. Até os últimos dias, permaneceu no laboratório da Embrapa Agrobiologia acompanhando alunos e colegas. A continuidade do trabalho levou a pesquisa de inoculantes a novas combinações de microrganismos e a outras culturas.

Em 2025, a World Food Prize Foundation registrou o uso anual de inoculantes em mais de 30 milhões de hectares de soja no Brasil. A proporção corresponde a 85 em cada 100 hectares da cultura. A escala torna visível o caminho percorrido desde os estudos de bactérias adaptadas aos solos tropicais.

No campo, o método começa antes de a planta nascer: aplicar o inoculante põe a semente em contato com as bactérias que vão se associar à raiz. Essa é a consequência prática da escolha de Döbereiner. O nitrogênio que sustentará o crescimento da soja pode vir da parceria biológica cultivada junto com ela.

Fontes

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