Pessoas e talento brasileiro
A cientista que ajudou a soja brasileira a dispensar adubo nitrogenado
Johanna Döbereiner apostou em bactérias adaptadas aos solos tropicais. A linha de pesquisa que ajudou a construir chegou a inoculantes usados em 85% da área brasileira de soja, segundo o retrato de 2025.

Uma lavoura que procurava nitrogênio
Uma planta de soja precisa de nitrogênio para crescer, mas a lavoura não precisa receber esse elemento apenas em sacos de adubo. Nas raízes, certas bactérias conseguem capturar o nitrogênio do ar e transformá-lo em uma forma que a planta aproveita. A decisão de levar essa parceria a milhões de hectares começou com uma cientista que escolheu o Brasil como pátria.
Em 1951, no Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícolas, em Seropédica, então município de Itaguaí, o agrônomo Álvaro Barcellos Fagundes contratou Johanna Döbereiner como assistente de pesquisa. Ela tinha acabado de chegar ao país e ainda não era especialista em microbiologia do solo. Quando Fagundes perguntou se ela poderia se tornar uma, Johanna respondeu com a segurança que guiaria sua carreira.
Döbereiner fez do estudo dos microrganismos uma carreira. Naturalizou-se brasileira em 1956 e passou a investigar as relações entre plantas, solo e bactérias nas condições tropicais. A preparação em microbiologia lhe deu ferramentas para questionar uma decisão que parecia estabelecida na agricultura: fornecer o nitrogênio da lavoura por adubação mineral.
Não sou uma especialista em microbiologia do solo. Mas se o senhor quiser que eu seja, serei.
Quando o adubo parecia o único caminho
Na década de 1960, os fertilizantes nitrogenados minerais eram uma aposta dominante para elevar a produção. Döbereiner trabalhou numa direção diferente: estudar até onde a associação entre plantas e bactérias poderia fornecer esse nutriente. A alternativa precisava funcionar no solo e no clima brasileiros, além de enfrentar o descrédito de boa parte dos cientistas.
Entre 1963 e 1969, a agrônoma iniciou um programa sobre os fatores que limitavam a fixação biológica de nitrogênio em leguminosas tropicais. O problema era tornar a parceria eficiente o suficiente para chegar ao campo. Escolher uma bactéria capaz de capturar o elemento seria apenas o começo; ela também precisava se associar bem às plantas cultivadas aqui.
O trabalho também tinha uma consequência econômica imediata. Cada aplicação de fertilizante acrescentava uma despesa ao produtor e ampliava a exposição da lavoura a um insumo cuja fabricação e uso podiam afetar rios e solo. Se as raízes conseguissem obter parte essencial do nutriente por outro caminho, a conta da produção mudaria junto com o método.
A fábrica microscópica na raiz
O inoculante coloca bactérias em contato com a semente. Elas vivem em associação com as raízes das leguminosas, formam nódulos e transformam o nitrogênio atmosférico numa forma que a planta aproveita. São os rizóbios. A relação funciona como uma pequena fábrica de nutriente instalada na raiz: a bactéria realiza a transformação biológica, enquanto a planta recebe o nitrogênio necessário ao crescimento.
A equipe da Embrapa selecionou grupos de rizóbios adaptados ao solo, ao clima e às variedades de soja brasileiras. A adaptação importava tanto quanto a capacidade de fixar nitrogênio. O inoculante teria de reunir microrganismos que trabalhassem bem com a planta e continuassem eficientes nas condições reais de cultivo.
O programa brasileiro de melhoramento da soja, iniciado em 1964, incorporou essa alternativa. A aposta de Döbereiner ajudou a orientar a cultura para associações eficientes com bactérias. Com essa parceria, a soja passou a obter nitrogênio sem receber o adubo mineral que forneceria o mesmo elemento.
A conta mudou junto com a semente
A economia aparece na escolha que o produtor faz por hectare. O retrato da tecnologia publicado em 2025 pela World Food Prize Foundation apresenta um contraste: de 30 a 50 quilos de fertilizante sintético, a cerca de 1 dólar por quilo, frente a inoculantes bacterianos que podem custar de 2 a 3 dólares por hectare e fornecer o nitrogênio da cultura.
Para a lavoura, essa diferença troca uma despesa em dezenas de dólares por uma aplicação de poucos dólares na mesma unidade de área. A seleção de microrganismos, desenvolvida ao longo de décadas, passou a ter efeito no custo do cultivo. A fixação biológica também reduz a dependência de fertilizantes nitrogenados minerais.
Os inoculantes começaram a ser usados em larga escala na soja na década de 1970. A prática reuniu duas frentes de pesquisa: as variedades vegetais e os microrganismos que se associam às suas raízes. Essa combinação levou a hipótese sobre bactérias para a semente plantada pelo agricultor.
Uma prática que ficou no campo
Döbereiner morreu em 5 de outubro de 2000, em Seropédica, aos 75 anos. Até os últimos dias, permaneceu no laboratório da Embrapa Agrobiologia acompanhando alunos e colegas. A continuidade do trabalho levou a pesquisa de inoculantes a novas combinações de microrganismos e a outras culturas.
Em 2025, a World Food Prize Foundation registrou o uso anual de inoculantes em mais de 30 milhões de hectares de soja no Brasil. A proporção corresponde a 85 em cada 100 hectares da cultura. A escala torna visível o caminho percorrido desde os estudos de bactérias adaptadas aos solos tropicais.
No campo, o método começa antes de a planta nascer: aplicar o inoculante põe a semente em contato com as bactérias que vão se associar à raiz. Essa é a consequência prática da escolha de Döbereiner. O nitrogênio que sustentará o crescimento da soja pode vir da parceria biológica cultivada junto com ela.
Fontes
- Memória Embrapa: personagens Johanna Döbereiner · Embrapa
- Os primeiros inoculantes · Revista Pesquisa FAPESP
- De camponesa a cientista indicada ao Prêmio Nobel · Embrapa Memória
- 2025 Laureate: Mariangela Hungria · World Food Prize Foundation
- File: Johanna-Döbereiner.jpg · Wikimedia Commons


