História e Legado

Antes de decolar, o avião de um brasileiro ficou pendurado num balão

Há 120 anos, Santos-Dumont fez o 14-bis voar diante do público em Paris. Antes daquela demonstração, precisou descobrir como manter o avião no ar e sob controle.

Publicado em 23 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Fotografia histórica do 14-bis no solo em novembro de 1906, com Santos-Dumont na cesta, asas em forma de caixas e outro avião ao fundo.
Foto: Jules Beau/Gallica (Domínio público)

Por volta das quatro da tarde de 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, em Paris, Alberto Santos-Dumont subiu no 14-bis e iniciou outra corrida de decolagem. O avião ganhou velocidade, levantou o nariz e tirou as rodas do chão. Voou 60 metros antes de pousar. A demonstração completa 120 anos neste 23 de outubro.

Antes de chegar àquele voo, o inventor brasileiro havia pendurado o avião num dirigível. A ideia era testar equilíbrio e comandos com o aparelho sustentado no ar. Depois vieram ensaios com um cabo suspenso, mudanças no motor e ajustes nas asas. Cada etapa atacava uma dificuldade que a corrida no campo, sozinha, não resolvia.

O desafio ia além de colocar uma hélice numa estrutura com asas. Era preciso fazer essa estrutura ganhar velocidade, produzir a força que a manteria no ar e responder ao piloto. A distância percorrida em Bagatelle demonstrava que o conjunto funcionava: o 14-bis decolara por seus próprios meios e voltara ao solo.

O balão segurou o avião para testar seu equilíbrio

Santos-Dumont já tinha experiência construindo e pilotando balões e dirigíveis. Neles, o gás dentro do envelope sustentava a máquina. O avião exigia outro caminho: suas asas precisavam encontrar o ar em movimento e gerar sustentação suficiente para carregar o aparelho e o piloto.

Uma pipa ajuda a visualizar essa força. Quando o ar passa pela superfície da pipa, ela pode subir. No avião, o motor movimenta a hélice e faz a máquina avançar; as asas encontram esse fluxo de ar e produzem sustentação. A velocidade e a posição das superfícies precisam trabalhar juntas.

O 14-bis nasceu com estrutura de bambu e revestimento de seda. As asas lembravam conjuntos de pipas em forma de caixa, inspiradas nos modelos do australiano Lawrence Hargrave. A hélice ficava atrás do piloto, empurrando o avião. Na frente, uma superfície em forma de caixa servia para controlar sua inclinação e direção.

Para experimentar esse arranjo, Santos-Dumont prendeu o avião ao dirigível número 14. Da associação veio o nome 14-bis. O balão permitia ensaiar estabilidade e controle, mas também criava resistência ao avanço. O inventor passou então a suspender o avião num carrinho que corria por um cabo inclinado, continuando os testes por outro caminho.

O motor mudou, e a hélice quebrou num pouso

Em agosto de 1906, os testes chegaram aoCampo de Bagatelle. Depois de várias corridas, Santos-Dumont identificou que o motor inicial não tinha potência suficiente e o substituiu por um Antoinette mais forte. Também reduziu o ângulo de montagem das asas: havia percebido que a inclinação excessiva atrapalhava o avião a ganhar velocidade.

A troca do motor ajudava a impulsionar o aparelho. O ajuste das asas atacava a resistência que segurava esse avanço. A solução dependia das duas coisas, porque a força disponível precisava fazer o avião alcançar uma condição em que pudesse se sustentar no ar.

Em 13 de setembro, diante de integrantes do Aéro-Club de France e do público, o 14-bis percorreu 13 metros em voo. O pouso foi duro e quebrou a hélice. Santos-Dumont precisou reparar o avião antes de tentar novamente.

Os 13 metros já mostravam a decolagem, mas ainda ficavam abaixo dos 25 metros exigidos para o prêmio oferecido por Ernest Archdeacon. Quando o brasileiro voltou ao campo em 23 de outubro e percorreu 60 metros, ultrapassou a distância necessária. O prêmio acompanhou um feito técnico que as pessoas puderam ver e medir.

Pilotar exigia mais que manter o motor ligado

Santos-Dumont pilotava em pé, dentro de uma cesta à frente do motor. Uma alavanca comandava o movimento longitudinal, ligado à inclinação do nariz; um volante atuava sobre a direção. No solo, rodas de bicicleta integravam o trem de pouso. O piloto precisava conduzir a corrida e depois administrar os movimentos do aparelho no ar.

O físico e historiador Henrique Lins de Barros, estudioso da trajetória do inventor, relaciona esse aprendizado à experiência que Santos-Dumont acumulou nas máquinas anteriores. Ao falar dos dirigíveis à Agência Brasil, resume como os acidentes também revelavam os problemas que precisavam ser resolvidos.

Ele sofreu diversos acidentes, mas aprendeu a voar. Foi assim que ele descobriu quais eram os problemas de um voo controlado.
— Henrique Lins de Barros · Físico e historiador

O voo seguinte chegou a 220 metros

Depois dos 60 metros, Santos-Dumont acrescentou superfícies móveis nas partes externas das asas para ampliar o controle. Os comandos dessas superfícies eram acionados por cabos ligados aos ombros do piloto. Assim, o próprio movimento do corpo entrava no sistema de pilotagem.

Em 12 de novembro de 1906, o 14-bis voltou a Bagatelle. Um carro acompanhava o avião pelo campo e deixava marcas para registrar a distância. Naquela demonstração, Santos-Dumont percorreu220metros. A Federação Aeronáutica Internacional registra o voo a uma altura de 6 metros.

Os problemas de controle continuaram a orientar os projetos seguintes. Em 1907, Santos-Dumont construiu o Demoiselle, um avião leve cuja hélice passou a ficar na frente. O modelo ganhou novas versões.

A Clément-Bayard comercializou 50 desses aviões. O projeto passava da demonstração conduzida pelo inventor para um aparelho que outros pilotos podiam comprar e usar. A experiência de levantar, controlar e pousar o 14-bis seguia adiante em uma máquina disponível para outras pessoas.

Fontes

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