História e Legado

Uma foto pequena barateou o exame de pulmão cem vezes no Brasil dos anos 1930

Na década de 1930, o médico Manoel Dias de Abreu trocou o registro direto dos raios X por uma fotografia da tela luminosa. O aparelho entrou em uso no Rio e tornou viável examinar pessoas que ainda pareciam saudáveis.

Publicado em 27 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Retrato histórico de Manoel de Abreu, com terno e gravata, em 1942.
Foto: Fotógrafo não identificado / Acervo Arquivo Nacional (Domínio público)

Em maio de 1936, técnicos da Casa Lohner instalaram no Hospital Alemão, no Rio de Janeiro, um aparelho preparado para examinar pulmões em série. Dentro dele, uma câmera fotografava a imagem que os raios X faziam aparecer numa tela luminosa. Era a solução desenvolvida pelo médico brasileiro Manoel Dias de Abreu para um problema que ultrapassava a sala de radiologia: como procurar tuberculose em muita gente sem repetir, para cada pessoa, o custo de uma radiografia convencional?

A pequena fotografia permitia guardar o exame e levá-lo para leitura posterior. O aparelho reunia tecnologias que já existiam, mas fazê-las trabalhar juntas exigira anos de tentativas. Quando a montagem começou a funcionar, o desafio deixou de ser conseguir uma imagem do pulmão e passou a ser levar essa possibilidade a quem ainda parecia saudável.

O diagnóstico chegava depois da doença

Abreu havia voltado da França ao Rio em 1922 e encontrado uma cidade castigada pela tuberculose. Muitos pacientes só procuravam tratamento quando a doença já estava numa fase grave. Ele conhecia a radiologia pulmonar e sabia que uma imagem podia revelar o que o exame feito apenas com percussão e auscultação deixava passar: durante seu trabalho em Paris, identificara com raios X um caso que não tinha sido reconhecido dessa forma.

Só que enxergar um pulmão e examinar uma população eram problemas de escalas diferentes. A radiografia tradicional exigia material caro e uma operação trabalhosa quando repetida milhares de vezes. Esperar que os doentes chegassem ao consultório mantinha o diagnóstico preso aos sintomas que já tinham aparecido.

A busca de Abreu era por um registro barato, rápido e transportável. A imagem precisava continuar útil para o médico, mas caber numa rotina de atendimento em série. Uma câmera de pequeno formato oferecia esse caminho, desde que conseguisse registrar o que a tela mostrava.

A tela precisava brilhar o suficiente

O obstáculo estava na luz. Abreu já tinha tentado fotografar a tela fluorescente por volta de 1919, mas ela brilhava pouco demais. Em 1924, fez outra tentativa e voltou a esbarrar no problema. A solução só se tornou viável quando uma tecnologia de maior fluorescência permitiu obter a fotografia com qualidade suficiente.

No exame convencional, os raios X atravessam o corpo e formam a imagem diretamente no filme radiográfico. No arranjo de Abreu, eles atingiam uma tela que transformava esse sinal em luz visível. Uma câmera então fotografava a tela com filme fotográfico comum. Era como fotografar uma imagem num painel iluminado: a câmera registrava a luz da tela, em vez de receber diretamente os raios X.

Essa troca de suporte fazia diferença no material usado e no tamanho do registro. Uma imagem grande de radiografia passava a caber numa pequena fotografia. No Brasil, ela chegou a acompanhar uma carteirinha que a pessoa podia apresentar numa escola ou num emprego. O exame ganhava um registro fácil de guardar e transportar.

A Casa Lohner, subsidiária da Siemens instalada no Rio, participou da construção do equipamento. Abreu foi quem levou a ideia a um dispositivo funcional para a triagem pulmonar. O nome abreugrafia, adotado no Congresso Brasileiro de Tuberculose em 1939, reconheceu essa contribuição.

Pessoas sem sintomas entravam na fila

Naquele período, a abreugrafia era cem vezes mais barata que uma radiografia tradicional. O comparador era o exame convencional dos pulmões da mesma época: ao fotografar a tela em filme comum, a solução reduzia o custo de produzir cada registro. A facilidade de transportar o equipamento também ajudava a deslocar o exame para operações de saúde pública.

Em março de 1937, o Rio criou o primeiro Serviço de Cadastro Torácico, equipado com uma versão aperfeiçoada do aparelho. Entre 8 e 21 de julho, o serviço examinou 758 pessoas aparentemente sadias. Em 44 delas, o registro mostrou lesões pulmonares. A procura ativa encontrava alterações em pessoas que não tinham chegado ali por se perceberem doentes.

A médica Dilene Raimundo do Nascimento, da Casa de Oswaldo Cruz, na Fiocruz, relaciona a mudança na operação ao tempo que se ganhava para tratar a doença.

Pelo seu custo baixo e pela facilidade de operar, tornou possível o exame em massa para o diagnóstico precoce da tuberculose
— Dilene Raimundo do Nascimento · Médica da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

A pequena fotografia saiu do Rio

O equipamento que funcionava na cidade chamou a atenção de quem organizava o combate à tuberculose fora do Brasil. Em 1937, o professor Holfelder veio ao país em nome da Siemens-Reiniger-Werke, conversou com Abreu e conheceu o aparelho. Ao voltar à Alemanha, fez modificações técnicas e apresentou uma versão ampliada, a unidade Abreu-Holfelder, utilizada em programas de triagem a partir de 1938.

Nas décadas de 1950 e 1960, a fotografia da tela já fazia parte de equipamentos usados em diferentes países. A possibilidade de montar, desmontar e transportar o conjunto levou exames até a comunidades distantes: no México, um navio com uma unidade completa percorria povoados para realizar a triagem.

Com a queda da incidência da tuberculose e o avanço dos tratamentos, essa operação mudou. Nos anos 1970, os programas de exames em massa começaram a ser interrompidos; em 1974, a Organização Mundial da Saúde se posicionou contra seu uso indiscriminado por expor pessoas desnecessariamente à radiação. A pequena fotografia que nascera no Rio já tinha aberto a porta de serviços de saúde a pessoas que, antes, esperavam a doença se tornar visível para procurar atendimento.

Fontes

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