História e Legado
Hospitais feitos em fábrica: a solução brasileira que espalhou a Rede Sarah
Em Salvador, João Filgueiras Lima dirigiu o Centro de Tecnologia da Rede Sarah, onde estruturas, equipamentos e peças foram fabricados para levar hospitais de reabilitação a diferentes regiões do país.

Um hospital projetado como um sistema
Um hospital costuma ser lembrado pela fachada ou pelo equipamento que abriga. Na Rede SARAH, parte decisiva da história aconteceu antes de cada paciente entrar: João Filgueiras Lima, conhecido como Lelé, tratou o edifício como um sistema que precisava ser desenhado, fabricado, montado e mantido de forma coordenada.
A escolha respondia a um problema concreto. O projeto de reabilitação aprovado em 1976 previa uma rede nacional de hospitais, e a primeira unidade de referência, inaugurada em Brasília em 1980, tinha escala para 350 leitos. Construir outras unidades em regiões diferentes exigia repetir uma lógica construtiva sem abandonar as necessidades dos pacientes, do clima e do trabalho médico.
A expansão encontrou um problema de produção
A expansão colocava um desafio que não terminava quando o projeto de um hospital ficava pronto. Cada nova obra precisava receber estruturas, coberturas, equipamentos e soluções de conforto que funcionassem juntas. O Centro de Tecnologia da Rede Sarah, o CTRS, nasceu para estender a rede a todo o território nacional e buscar economia e rapidez na construção.
Em Salvador, em 1992, sob a direção de Lelé, o CTRS começou a funcionar em instalações provisórias no mesmo terreno do Hospital Sarah. No ano seguinte, ganhou instalações definitivas. Lelé dirigiu esse centro como uma oficina de projeto e produção, com setores de metalurgia, argamassa armada, marcenaria e plástico. A decisão deslocou parte da fabricação para perto da unidade e criou um circuito comum entre projeto, oficina e obra.
A oficina passou a fazer parte do projeto
O CTRS aplicava a pré-fabricação em todas as etapas dos edifícios da Rede Sarah, da superestrutura a objetos hospitalares como a cama-maca. Em vez de levar ao terreno apenas um desenho para ser interpretado, a equipe desenvolvia componentes que já tinham função definida e depois os montava na obra. A argamassa armada permitia criar peças resistentes com poucos centímetros de espessura. Elas ficavam mais leves e flexíveis, o que facilitava transporte e montagem.
O princípio se parece com montar um armário a partir de peças cortadas e preparadas antes, mas em escala de edifício: a oficina resolve parte da precisão antes de a equipe chegar ao local, e o canteiro organiza os componentes para formar o conjunto. Cada peça precisa responder ao uso hospitalar, à manutenção e às condições do lugar, além de se encaixar fisicamente no conjunto.
Lelé também ajustou o sistema ao clima brasileiro. Os projetos combinavam elementos padronizados com espaços verdes, iluminação natural e ventilação natural. Em regiões quentes e úmidas, captar e retirar o ar ajudava a criar ambientes mais agradáveis e salubres e reduzia a dependência de ar-condicionado. A decisão técnica fazia parte do edifício desde o desenho, em vez de aparecer como um equipamento acrescentado depois.
O que saiu da fábrica chegou a outras cidades
A produção do centro acompanhou a expansão da Rede Sarah para diferentes regiões. Lelé e sua equipe fabricaram os demais hospitais depois das primeiras unidades de Brasília e São Luís. As oficinas reuniam estruturas e objetos de uso hospitalar num sistema que podia ser levado a outras cidades e ajustado ao programa de cada unidade.
Salvador recebeu seu hospital em 1994; Belo Horizonte, em 1997; Fortaleza, em 2001; Macapá, em 2005; Belém, em 2007. Em2009, a rede inaugurou o Centro Internacional de Neurociências e Neurorreabilitação do Rio de Janeiro. Os endereços mostram o salto entre resolver uma obra de referência e construir uma infraestrutura de reabilitação em diferentes partes do Brasil.
A fábrica chegou a outros edifícios
O CTRS não parou nos hospitais. A mesma tecnologia de industrialização foi usada em postos avançados do Tribunal de Contas da União, prédios para programas sociais, passarelas cobertas e equipamentos urbanos e hospitalares. A fotografia desta página mostra um edifício do TCU em Cuiabá, projetado por Lelé, como registro visual desse desdobramento do sistema para além da Rede Sarah.
Lelé e a equipe também levavam a experiência dos usuários para o processo de projeto. A sequência incluía ouvir quem utilizaria o hospital, desenhar os espaços, fabricar os componentes, montar o edifício e avaliar seu funcionamento. Essa aproximação colocava as necessidades de atendimento ao lado das decisões de arquitetura, engenharia e produção.
Para quem recebe atendimento, a oficina aparece na cobertura que deixa entrar luz, no espaço protegido do calor e no equipamento que ajuda o paciente a se deslocar. Lelé levou a fabricação até a cama-maca e combinou a construção com o uso diário do hospital. O sistema feito em Salvador chegou a lugares distintos mantendo a reabilitação no centro das decisões.
Fontes
- História · Rede SARAH
- Industrialização da construção no Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS) · Vitruvius, Arquitextos
- Morte do médico Aloysio Campos, fundador do Sarah, entristece a Arquitetura · CAU/BR
- Análise, síntese e avaliação: o processo de projeto de João Filgueiras Lima, Lelé, nos hospitais da Rede Sarah Kubitschek · Paranoá / Universidade de Brasília


