História e Legado
Pela porta da impressora, um computador ganhou voz brasileira
O DOSVOX começou com a necessidade de um estudante ler a própria tela. A resposta brasileira juntou um circuito de revista, programação e as escolhas de quem usaria o sistema.

Em maio de 1993, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcelo Luiz Pimentel Pinheiro começou a trabalhar numa ideia que precisava dar certo para sua própria vida de estudante. Cego, ele sabia programar e dominava o teclado. O obstáculo era conferir o que aparecia no monitor e acessar o material que os colegas podiam ler.
A resposta tomaria um caminho improvável: a porta usada para ligar a impressora ao PC viraria uma saída de voz. Pimentel, o professor José Antonio dos Santos Borges e outros colaboradores do Núcleo de Computação Eletrônica, o NCE, construíram o DOSVOX, um ambiente em português no qual pessoas cegas podiam escrever, ler arquivos e comandar o computador pelo som.
No início, depender de outra pessoa para ler a tela atrapalhava até a descoberta de um erro no programa. Pimentel descreveu assim a dificuldade que queria remover:
o maior problema era acessar instantaneamente as informações visuais do monitor
Uma revista de eletrônica entrou no caminho da voz
Pimentel já havia conseguido apoio para uma pequena sala com computador e impressora Braille. Borges, que lhe ensinava Computação Gráfica, buscava uma forma de trabalhar com som. Displays que convertiam informações em pontos táteis eram caros; uma solução importada de fala em inglês tampouco resolvia o acesso cotidiano aos textos em português.
Borges encontrou numa revista de eletrônica um circuito capaz de produzir música pela interface de impressora. Chamado R2R, ele combinava resistores para converter valores digitais em um sinal elétrico que podia virar som. O professor montou o circuito e percebeu uma possibilidade: trocar os sons de instrumentos por gravações de voz.
Era uma mudança de função. A mesma porta que enviava dados para imprimir uma página podia enviar a sequência necessária para reproduzir uma letra. Mas primeiro seria preciso obter gravações que funcionassem naquele circuito.
Borges comprou com o próprio dinheiro uma placa SoundBlaster Pro para gravar os sons. A reprodução deu certo. Ele levou a Pimentel o circuito e arquivos com algumas letras faladas; juntos, criaram o SoleArq, programa que soletrava um arquivo de texto. O conteúdo guardado no computador começava a chegar pelo ouvido.
Ouvir a letra era o começo; escrever exigia mais
O engenheiro Diogo Fujio Takano, também do NCE, redesenhou a montagem para torná-la mais confiável. Acrescentou um pequeno amplificador que permitia conectar fones de ouvido e usar a energia disponível na própria porta de impressora. A solução deixava de ser um circuito provisório difícil de conectar com segurança.
Pimentel avançou no programa. Ao pressionar uma tecla, o computador procurava o arquivo com o som correspondente e o reproduzia. Esse retorno ajudava a confirmar a digitação e formou a base do EDIVOX, o editor falado. Em dezembro de 1993, a apresentação do trabalho à reitoria trouxe apoio ao projeto.
Pense em digitar uma mensagem e precisar pedir a alguém que confira cada correção. Com o retorno sonoro, o autor podia verificar o próprio texto. Para um estudante de informática, isso também abria caminho para reconhecer mensagens de erro e continuar trabalhando sem esperar um leitor ao lado.
Borges criou menus com mensagens gravadas e ajuda acionada pelo teclado. O objetivo era reduzir o que o usuário precisava decorar: em vez de dominar uma sequência extensa de comandos, ele podia ouvir as opções e escolher a próxima tarefa.
O curso mostrou que o texto precisava fluir
O projeto cresceu quando a dupla preparou um curso para outros alunos cegos da universidade. Em abril de 1994, a primeira versão do DOSVOX estava pronta, reunindo o editor, o gerenciamento de arquivos e uma ferramenta para conhecer as teclas. A experiência de um programador começava a virar uma porta de entrada para quem ainda aprendia informática.
O uso nas aulas revelou um problema: escutar cada letra separadamente tornava a leitura cansativa. Tente acompanhar uma frase inteira soletrada, mesmo quando você já reconhece todas as palavras. Era preciso fazer o computador falar de um modo que o ouvido pudesse acompanhar por mais tempo.
A equipe gravou mais de quinhentas sílabas do português e criou uma rotina para identificar as partes do texto e tocar os sons em sequência. Em agosto de 1994, surgiu a versão que falava com mais fluidez. A passagem das letras para as sílabas transformou a experiência de ouvir um documento.
As necessidades dos usuários leigos passaram a orientar o desenvolvimento. Sugestões de pessoas cegas levaram a ajustes e novas versões. Pimentel também criou um terminal para acesso à internet em 1995, estendendo o trabalho para além dos arquivos guardados na máquina.
A voz saiu do laboratório e voltou em forma de sugestões
O DOSVOX passou a ser usado por pessoas cegas em tarefas reais de computador. Uma pesquisa publicada em 2012 examinou a interação de estudantes cegos com a Web usando o sistema e propôs melhorias de usabilidade. Tornar a informação audível era parte do trabalho; organizar a navegação para quem dependia do som continuava a exigir escolhas de projeto.
A comunidade manteve esse diálogo. De 20 a 22 de novembro de 2025, o Instituto Benjamin Constant, na Urca, no Rio de Janeiro, recebeu o 26º Encontro de Usuários de Dosvox. Palestras e oficinas reuniram experiências de acessibilidade, e transmissões levaram o encontro a quem acompanhava à distância.
O programa trazia uma oficina para criar textos bem apresentados com Markdown, um modo de marcar títulos e outros elementos de um documento com sinais simples no teclado. O caminho que começou com a leitura de letras chegava à preparação de textos para outras pessoas lerem.
A evolução do sistema segue ligada a esse uso cotidiano: ouvir sugestões, melhorar ferramentas e ensinar novos usuários. Para quem escreve um trabalho ou uma mensagem, a diferença é poder reler, corrigir e enviar o que produziu usando a própria escuta.
Principais pontos
- Na UFRJ, a combinação de eletrônica simples e software deu a pessoas cegas acesso à leitura e à escrita no computador.
- A primeira versão do DOSVOX ficou pronta em abril de 1994; o uso nas aulas levou da soletração à fala por sílabas.
- Os usuários participaram das melhorias e mantiveram uma comunidade de aprendizado e troca de ferramentas.
Fontes
- Histórico do DOSVOX: criação e desenvolvimento · Projeto DOSVOX / NCE-UFRJ
- DOSVOX: o que você deseja? · Marcelo Pimentel / Revista Benjamin Constant
- Dosvox Usability: recommendations for improving interaction of blind people with the web using the system · Edson Rufino de Souza e Sydney Fernandes de Freitas / Work, 2012
- Programa do 26º Encontro Nacional de Usuários do Sistema DOSVOX, 2025 · EXALUIBC / Instituto Benjamin Constant / NCE-UFRJ
- Encontro Brasileiro de Usuários de Dosvox 2025: agradecimentos · Comissão Organizadora do Encontro DOSVOX 2025 / NCE-UFRJ


