História e Legado
Um museu suspenso para deixar o chão livre: como a engenharia brasileira construiu o MASP
Para preservar a vista e o espaço público na Avenida Paulista, José Carlos de Figueiredo Ferraz e José Lourenço Braga Castanho levaram as cargas do museu até suas extremidades. A estrutura tornou possível o edifício suspenso de Lina Bo Bardi, inaugurado em 1968.

Antes da inauguração do MASP na Avenida Paulista, em 1968, os operários hesitaram em retirar as escoras que sustentavam o prédio durante a construção. Temiam que a estrutura desabasse. Os engenheiros José Carlos de Figueiredo Ferraz e José Lourenço Braga Castanho foram para o centro do vão e permaneceram ali enquanto o trabalho era feito. O museu precisava ficar de pé sem os apoios provisórios, deixando abaixo dele o espaço que Lina Bo Bardi havia reservado para a cidade.
O terreno na Paulista precisava continuar aberto para a cidade
Fundado em 1947, o Museu de Arte de São Paulo funcionava na Rua Sete de Abril, no centro da capital, em um prédio dos Diários Associados. Quando recebeu o terreno da Avenida Paulista, a mudança trouxe uma condição: manter a vista para o Parque do Trianon e para a Avenida Nove de Julho.
Lina Bo Bardi, arquiteta ítalo-brasileira, concebeu um edifício suspenso. Os pavimentos abrigariam o museu acima de um espaço para encontros e atividades públicas. Para sustentar o prédio sem uma sequência de colunas sob ele, os engenheiros precisavam levar as cargas até as extremidades.
Em 1967, Lina escreveu: “Gostaria que lá fosse o povo, ver exposições ao ar livre e discutir, escutar música, ver fitas.”
João Antônio del Nero, integrante da equipe de Ferraz, comparou a tarefa a uma ponte. “Um vão desse tamanho com essa carga era impossível fazer com concreto armado, era uma grande ponte com cargas imensas”, disse. A equipe escolheu trabalhar com concreto protendido.
Cabos tensionados prepararam o concreto para sustentar os pavimentos
O concreto resiste bem quando é comprimido, mas tem pouca resistência à tração, o esforço que tende a esticá-lo. Uma viga carregada sofre os dois tipos de esforço em regiões diferentes. No concreto armado, o aço ajuda a suportar a tração.
Na protensão, a armadura de aço é tensionada para comprimir previamente a região que depois será solicitada à tração. Januário Pellegrino Neto, professor de Engenharia Civil do Instituto Mauá de Tecnologia, descreve essa armadura como ativa: ela introduz força no concreto antes das cargas usuais.
Em um varal esticado, a tensão do fio já existe antes de pendurar a roupa. Nas vigas do MASP, a tensão dos cabos comprime o concreto antes de ele receber o peso dos pavimentos.
Ferraz havia estudado soluções europeias de protensão e desenvolvido seu próprio processo de aplicação. A dificuldade no MASP estava nos cabos de aço então disponíveis no Brasil, que não suportariam a carga necessária. Para a obra, ele empregou o processo que havia desenvolvido.
Castanho cuidou dos cálculos estruturais e transformou o sistema em uma estrutura com articulações móvel e fixa. A articulação móvel permite deslocamento; as articulações permitem rotação, acomodando os movimentos previstos para as grandes peças.
Mosze Gitelman projetou o escoramento de eucalipto usado na construção. Del Nero fez os aparelhos de apoio das grandes vigas e também as sapatas, que recebem as cargas dos pilares no terreno. Ele verificou situações desfavoráveis para avaliar se o túnel da Avenida Nove de Julho seria afetado pelas fundações.
Quatro pilares receberam as cargas sem ocupar o centro do vão
Quatro pilares e quatro vigas protendidas sustentam os dois pavimentos e a cobertura. As vigas do interior sustentam o primeiro pavimento por tirantes de aço, peças que trabalham à tração, e também a laje do segundo pavimento. A cobertura está ligada às vigas superiores por elementos transversais. Desse conjunto, as cargas seguem para os pilares e para as fundações.
As vigas superiores vencem 70 metros entre apoios, o comprimento de duas quadras e meia de basquete no padrão da Federação Internacional de Basquete, cujas quadras têm 28 metros de comprimento.
Os tirantes de aço eram unidos por luvas rosqueáveis. Os caixilhos, armações que sustentam os vidros da fachada, receberam juntas telescópicas para acomodar deformações. A cobertura usou juntas flexíveis.
Em 7 de novembro de 1968, o prédio foi inaugurado na Avenida Paulista, em uma cerimônia da qual participou a rainha Elizabeth II.
A estrutura recebeu impermeabilização e novos cabos ao longo dos anos
Até 1989, as colunas eram cinza, com o concreto exposto. Infiltrações e goteiras levaram à impermeabilização das vigas. Lina propôs pintá-las de vermelho e mostrou um desenho antigo em que já havia pensado nessa cor, como contou o arquiteto Marcelo Ferraz, que trabalhou com ela.
Nos anos 1990, a empresa de engenharia Figueiredo Ferraz revisou a cobertura e os pórticos, conjuntos de pilares e vigas. A revisão incluiu a impermeabilização da laje e um reforço por protensão externa, com cabos novos instalados fora do concreto original. O projeto é de 1997; a execução ocorreu em 1999.
No reforço, os novos cabos foram ancorados em blocos de concreto ligados às paredes e à base das vigas superiores. Para instalar o sistema, a equipe abriu passagens nas divisões internas das vigas, por onde circularam operários e materiais. O trabalho acontecia também dentro dessas peças, cujas seções têm espaços ocos.
Os esforços nos cabos podem diminuir com o tempo devido ao comportamento do concreto e do aço. A proteção contra corrosão faz parte dos cuidados com a armadura.
O Vão Livre mantém programação cultural regular e gratuita
Hoje, o Vão Livre recebe música, cinema, teatro, literatura e oficinas em uma programação regular e gratuita. Sob gestão do MASP desde novembro de 2024, após concessão da Prefeitura de São Paulo, a área oferece acesso 24 horas, mobiliário de descanso e bicicletário.
Principais pontos
- José Carlos de Figueiredo Ferraz e José Lourenço Braga Castanho projetaram a estrutura do MASP com concreto protendido, inaugurada em 7 de novembro de 1968.
- As vigas superiores do MASP têm vão de 70 metros, equivalente ao comprimento de duas quadras e meia de basquete FIBA de 28 metros.
- O Vão Livre do MASP mantém programação cultural regular e gratuita e está sob gestão do museu desde novembro de 2024.
Fontes
- Tecnologia – Masp, uma singular obra de arte da engenharia · Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo
- A relojoaria do Masp · Vitruvius / Arquitextos
- Projetado por Lina Bo Bardi, prédio do Masp completa 50 anos · Agência Brasil
- Vão Livre · MASP
- O MASP de Lina · MASP
- What is the difference between NBA, WNBA, and FIBA basketball rules? · Canadian Olympic Committee
- Entenda quais as características do concreto protendido · Mapa da Obra / Votorantim Cimentos


