História e Legado

Uma usina de 180 MW dentro da rocha mudou a energia do Nordeste

A solução de Octávio Marcondes Ferraz para a Chesf pôs as máquinas na rocha do São Francisco. Com 180 MW instalados, Paulo Afonso I mais que duplicou a capacidade de geração que o Nordeste tinha antes da obra.

Publicado em 2 de novembro de 2026 · 5 min de leitura · Brazilian Engineering
Cânion do Rio São Francisco, passarela metálica e estruturas do complexo hidrelétrico da Chesf em Paulo Afonso.
Foto: Ingridgaab / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Fechar o rio para construir a usina

Em 3 de junho de 1952, no canteiro de Paulo Afonso, na divisa entre Bahia e Alagoas, equipes de engenheiros, técnicos e operários da Chesf começaram a fechar o braço principal do Rio São Francisco.

A obra acontecia em um lugar sem recursos básicos para um canteiro daquele tamanho. A Chesf precisava abrir caminhos de serviço, instalar acampamentos, construir barragens e montar os equipamentos. O controle do rio permitiria escavar e construir o circuito por onde a água chegaria às máquinas.

O déficit de energia levou a Chesf à cachoeira

A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco foi constituída em 15 de março de 1948 para enfrentar o déficit energético do Nordeste. A região era atendida precariamente por sistemas elétricos de pequeno porte, dependentes em larga medida da geração termelétrica. Uma grande central na cachoeira de Paulo Afonso ampliaria uma oferta que até então vinha de usinas pequenas e dispersas.

O engenheiro-agrônomo pernambucano Apolonio Jorge de Faria Sales propôs a criação da Chesf como empresa pública responsável pelo aproveitamento da cachoeira. O engenheiro Antônio José Alves de Souza estruturou a companhia e assumiu sua primeira presidência. Em 1949, começaram as obras: um empreendimento de grande envergadura e complexidade, até então não enfrentado pela engenharia nacional.

Marcondes Ferraz desenhou o caminho pela rocha

O projeto definitivo foi elaborado pelo engenheiro Octávio Marcondes Ferraz, diretor técnico da Chesf. Sua solução era diferente das propostas esboçadas até então: duas barragens de pequena altura, dispostas em forma de funil, reuniriam a água na tomada construída entre elas; dali, túneis de adução escavados na rocha levariam o fluxo até uma casa de máquinas subterrânea. Um túnel de descarga devolveria a água ao cânion do São Francisco.

As barragens funcionavam como mãos em concha: juntavam a água antes de conduzi-la pela abertura central. A tomada d’água alimentava os túneis escavados na rocha. O fluxo passava pelas turbinas, cujos eixos acionavam os geradores, e seguia pelo túnel de descarga até o cânion do São Francisco. A posição subterrânea das máquinas permitia aproveitar o desnível da cachoeira.

Domingos Marchetti, italiano radicado no Brasil e especialista em túneis, integrou a equipe de assessores de Marcondes Ferraz. O engenheiro francês André Jules Balança fez os cálculos hidráulicos e construiu o modelo reduzido da usina. A equipe estudava o comportamento da água antes de executar a solução no rio.

A companhia executou a construção diretamente, sem firmas empreiteiras. Engenheiros, técnicos e operários da Chesf ficaram responsáveis pelos acampamentos, pelos caminhos de serviço, pela barragem e pela montagem eletromecânica. O trabalho não terminava na casa de máquinas: a empresa também precisava construir o sistema de transmissão que levaria a eletricidade para fora do canteiro.

O desvio enfrentou uma objeção do financiador

O projeto subterrâneo ainda dependia de fechar o braço principal do São Francisco para liberar a área da obra. Havia oito concepções de aproveitamento daquele potencial hidrelétrico, e a solução do desvio enfrentou críticas. Marcondes Ferraz precisava sustentar uma decisão que afetava a construção das barragens e o caminho da água até as máquinas.

Em abril de 1954, o Banco Mundial, financiador da obra, discordou da solução proposta para o desvio. O modelo reduzido de Balança fazia parte do estudo hidráulico do empreendimento. A direção do banco voltou atrás, e o fechamento do braço principal foi concluído em 28 de setembro de 1954.

A inauguração mudou a escala da geração

Em 15 de janeiro de 1955, a Chesf inaugurou Paulo Afonso I, na divisa entre Bahia e Alagoas. A usina se tornou o primeiro grande marco de geração elétrica da companhia. Sua configuração de potência instalada chegou a 180 MW, com três unidades de 60 MW.

Os 180 MW de Paulo Afonso I mais que duplicaram a capacidade de geração preexistente do Nordeste, até então baseada quase exclusivamente em pequenas termelétricas. A região passou a contar com uma central capaz de alimentar um mercado elétrico regional, ligado por linhas de transmissão, além dos sistemas locais que existiam antes da obra.

As barragens abriram caminho para duas novas usinas

Paulo Afonso reuniu geração de grande porte, longas linhas de transmissão e atendimento de mercados regionais. A interligação com outras usinas passou a fazer parte do modelo: a eletricidade deixava de depender apenas de uma central isolada próxima de cada localidade.

As duas barragens da primeira obra já haviam sido projetadas para receber novas tomadas d’água e novas casas de máquinas. Essas ampliações deram origem a Paulo Afonso II e III, também subterrâneas. O arranjo aberto na rocha para a primeira usina permitiu construir outras centrais no mesmo aproveitamento do São Francisco.

Principais pontos

  • Octávio Marcondes Ferraz projetou Paulo Afonso I para a Chesf, cuja equipe executou diretamente as barragens, os túneis e a montagem da usina.
  • Inaugurada em 15 de janeiro de 1955, Paulo Afonso I alcançou 180 MW de potência instalada e mais que duplicou a capacidade de geração preexistente do Nordeste.
  • As barragens de Paulo Afonso I foram preparadas para ampliações que deram origem às casas de máquinas subterrâneas de Paulo Afonso II e III.

Fontes

Voltar para o Blog